22 maio 2020

Brasil, mostra a tua cara.

Jair Bolsonaro ataca a quarentena e defende medicamentos sem eficácia comprovada, estimulandoa desobediência ao isolamento social, único meio capaz de frear a doença. Com isso, convence parte da população e desmobiliza esforços de governadores e prefeitos. O País caminha para se tornar o epicentro da pandemia no mundo

Crédito: Gabriel Monteiro
DESRESPEITO Populares ignoram a pandemia e se divertem no aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro (Crédito: Gabriel Monteiro)

Marcos Strecker – Istoé

Mateus Bonomi

Subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos, dizia Nelson Rodrigues. A piada continua válida, mas o presidente resolveu acelerar o processo. A sua ação política e pessoal, que nega a luta pela vida e ignora medidas como o isolamento social, aumenta o drama vivido pelo País. O índice de adesão à quarentena no País vem caindo desde março, e atingiu seu número mais baixo na última quarta-feira, segundo a plataforma In Loco — 41,7%, enquanto os especialistas recomendam 70%. O desgoverno de Bolsonaro tornou o País um pária na comunidade internacional, na rabeira do combate global à pandemia. Na última semana, o Brasil ultrapassou a barreira de mil mortes diárias. Mais de 20 mil brasileiros já perderam a vida.

RADICALISMO Jair Bolsonaro reuniu 11 ministros e recepcionou apoiadores, inclusive um grupo de paraquedistas, no domingo, 17 (Crédito:Divulgação)

Os mais de 300 mil casos confirmados colocaram o País na terceira colocação mundial no ranking de infectados. O número de novos casos diários, na casa de 20 mil, já se aproxima dos EUA, líder mundial nesse quesito. A Universidade de Washington (EUA) prevê que o Brasil poderá ter 90 mil mortes até a primeira semana de agosto. Esse número pode chegar a 194 mil. Os números assustadores também devem se reproduzir na economia. O tombo do PIB vai ser maior do que no resto do mundo, e a retomada será mais difícil. As ações antiambientais do mandatário já haviam afastado os investidores. Agora, a pandemia tirou o País do mapa do capital internacional pelos próximos anos.

Alheio à emergência, o presidente continua sua cruzada contra as medidas de isolamento social. No domingo, 17, voltou a se encontrar com apoiadores em frente ao Palácio do Planalto, acompanhado de onze ministros. Desta vez, usou máscara e adotou tom conciliador. Mas continuou a transferir para os governadores e a imprensa a culpa pela expansão da doença. Ao sair do Palácio da Alvorada, em direção à manifestação, repreendeu o general Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) por falar com jornalistas. Depois, divulgou que o ato tinha sido pacífico: “Nenhuma faixa, nenhuma bandeira que atente contra a nossa Constituição”. O tom ameno não se deve a uma mudança de atitude. Acontece pelo receio de que o inquérito aberto após as denúncias feitas pelo ex-ministro Sergio Moro levem o ministro Celso de Mello, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), a divulgar na íntegra a fita da reunião do dia 22 de abril. Essa gravação preocupa o presidente, pois pode confirmar a tentativa de interferência na Polícia Federal e tem potencial de escancarar à opinião pública os ataques de ministros aos outros Poderes, brigas no seio do governo e críticas a países aliados. A barafunda da administração Bolsonaro já levou à demissão de 11 ministros, sem contar os quatro titulares da Secretaria da Cultura — a última titular, Regina Duarte, foi exonerada na última quarta-feira, menos de três meses depois de assumir a função.

Insistência na cloroquina

Por culpa de Bolsonaro, a política de combate à doença permanece disfuncional. Além de ignorar a recomendação de especialistas, ele ataca os governadores que estão na linha de frente. Sua ações desorganizam o sistema de saúde já em dificuldades. Médicos da rede pública se dizem pressionados pela crescente recomendação para que prescrevam a cloroquina, apesar do alerta das entidades médicas com a falta de comprovação dos efeitos positivos e o risco de efeitos colaterais. O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, previu que seu uso indiscriminado poderá aumentar o número de mortos em casa. A sabotagem à quarentena estimula atitudes inconsequentes pelo País.

Em várias cidades, a população sai às ruas ignorando os riscos. Com a expansão da doença, vários municípios em situação dramática, sem leitos de UTI disponíveis, no Rio de Janeiro, Pará, Tocantins, Amapá, Roraima e Paraná, precisaram impor o lockdown. Mas seus prefeitos precisam confrontar o discurso do presidente, que anuncia pílulas milagrosas e menospreza o perigo da doença. A Justiça tenta reagir. O ministro Rogério Schietti Cruz, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), negou um habeas corpus impetrado pela deputada bolsonarista Clarissa Tércio, que pedia o fim do isolamento em Pernambuco. Em sua sentença, o juiz aponta o desgoverno na área da saúde e diz que os governos regionais estão carentes de “uma voz nacional que exerça o papel que se espera de um líder democraticamente eleito, responsável pelo bem-estar e saúde de toda a população, inclusive da que não o apoiou ou apoia”. A anarquia gerencial do governo Bolsonaro impede que o País discuta um plano para a retomada programada da economia. O mandatário ainda está atrapalhando os gestores que, sem recursos, tentam desesperadamente salvar vidas.

Enquanto a espiral de números assombra e enluta a população, Bolsonaro aprofunda a crise. Demitiu dois ministros da Saúde em 29 dias, em plena pandemia. Depois de exonerar Mandetta, forçou a demissão do novo titular da pasta, Nelson Teich, na sexta-feira, 15. O cargo permanece vago, e o presidente disse que poderia continuar assim “por muito tempo”.

Covid-19 lidera as mortes

O general Eduardo Pazuello, titular de facto da pasta, espantou a comunidade internacional na última semana ao omitir a gravidade da situação quando se dirigiu a uma conferência da Organização Mundial da Saúde. Outro general, Luiz Eduardo Ramos, preferiu culpar a imprensa pelo “clima de terror”, pois os telejornais só mostram “imagens de caixão e corpo”. Contra a lógica e o bom senso, o governo tenta criar a narrativa de que o novo coronavírus mata menos do que outras doenças. Para os militares do governo, deve-se divulgar o grande número de pessoas salvas. Foi o que ocorreu na última terça-feira, 19, quando a Secretaria de Comunicação, do notório incompetente Fabio Wajngarten, comemorou a marca de 100 mil brasileiros “salvos” da doença. Numa ironia macabra, no mesmo dia o Brasil ultrapassou a barreira de mil mortes diárias e a Covid-19 se tornou a principal causa de mortalidade nacional, superando as doenças cardiovasculares, o câncer, as doenças respiratórias, os homicídios e acidentes de trânsito. No briefing diário para atualizar os dados da pandemia, nenhuma alta autoridade compareceu. Como numa reafirmação do descaso oficial, a secretária substituta da Secretaria de Atenção Primária à Saúde, Daniela Ribeiro, fez uma explanação sobre aleitamento materno. Um deboche.

No mesmo dia 19, Bolsonaro tratou a doença com chacota. “Quem é de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma tubaína”, disse rindo em uma live em suas redes sociais. Comentava sua próxima iniciativa para o uso da cloroquina (leia mais à pág. 30). A droga foi liberada para todos os pacientes no dia seguinte, em um documento do Ministério da Saúde — que, significativamente, não trazia nenhuma assinatura. Isso ocorre porque o general Pazuello, assim como os 17 militares que acabou de integrar à pasta, não são médicos. Alguns são bolsonaristas e usaram as redes sociais para defender o presidente e atacar o presidente da Câmara. A militarização da pasta confirma uma gestão alheia à recomendação dos especialistas e voltada para a logística da distribuição da cloroquina, que é produzida pelo Exército. Na América Latina, apenas Bolsonaro e o ditador venezuelano Nicolás Maduro defendem o remédio. No mundo, Donald Trump é voz solitária em sua defesa. O presidente americano, cuja aproximação e amizade Bolsonaro considera seu grande trunfo na política internacional, engrossa a péssima visão internacional do Brasil atualmente. Na última semana, ele voltou a ameaçar a entrada nos EUA de voos provenientes do Brasil. “Não quero pessoas vindo para cá e infectando nosso povo”, disse Donald Trump.

“Politizaram a ciência”, disse com propriedade Mandetta, que foi demitido exatamente por se recusar a prescrever o remédio. Cloroquina é uma tática bolsonarista para enfraquecer a quarentena, que na visão do presidente atrapalha a economia e suas chances de reeleição — cada vez menores. Difundir um medicamento que não tem comprovação científica também é uma cortina de fumaça para a inação do governo, que não está entregando respiradores prometidos aos Estados — 12 capitais já têm ao menos 80% dos leitos públicos de UTI ocupados. Para o presidente, os embustes representam uma forma de fugir das responsabilidades. São uma das razões para a edição da Medida Provisória (MP) 966, batizada de “E daí?” — em referência ao seu comentário quando o País passou das 5 mil mortes, no dia 28 de abril. Essa MP isenta agentes públicos de responsabilização por seus atos durante a epidemia, o que pode beneficiar o próprio presidente em suas iniciativas irresponsáveis. O Supremo Tribunal Federal (STF) já iniciou o julgamento da constitucionalidade dessa medida, e pode barrar mais essa imoralidade. É apenas uma das ameaças que o mandatário enfrenta na Corte. A maior, a partir de agora, torna-se o crime contra a saúde pública. Seu desprezo continuado pela vida humana é o maior argumento para a caracterização de crime de responsabilidade, que pode levar ao impeachment.

O exemplo furado da Suécia

Para justificar sua conduta, o presidente insiste no sofisma de que a crise atual representa uma luta entre a economia e a saúde. É um argumento que não para em pé. Os países que foram mais ágeis e disciplinados na adoção de medidas de isolamento social não apenas contiveram o avanço da doença mas também atenuaram os danos econômicos. Terão uma retomada mais rápida e eficiente. É o que a China já prenuncia, com o encerramento do lockdown em Wuhan, onde o novo coronavírus se originou. As nações que implantaram testes em larga escala e usaram a tecnologia para acompanhar os contaminados contiveram a expansão, como aconteceu na Coreia do Sul. Em sua política de desinformação, Bolsonaro tenta usar a Suécia como exemplo bem-sucedido de país que não praticou o isolamento social. Ele não viu os dados, ou simplesmente exercita mais uma gazopa. A Suécia enfrenta recessão similar ao resto da Europa — deve ter retração de até 7,1%, enquanto a zona do euro deve cair 7,4%. Com aumento de 27% no número de óbitos, o país se saiu pior do que seus vizinhos nórdicos na resposta à doença, especialmente nos óbitos em clínicas e residências para idosos. Alcançou entre os dias 13 e 20 de maio a maior taxa de mortalidade per capita do mundo (6,08 mortes por milhão). Além disso, não é possível comparar a realidade social brasileira com a sueca, que tem um elevado percentual de pessoas morando sozinhas (56,6% da população, mais que o dobro do índice de Portugal). Seu sistema de saúde é exemplar e a população tem alto poder aquisitivo. Em contraste, Bolsonaro já declarou que o brasileiro pula em esgoto e “não acontece nada”. Como o presidente sabe, a saúde pública no Brasil ainda tem deficiências crônicas, e os hospitais federais no Rio de Janeiro, sob sua responsabilidade, estão em colapso. São prova disso.

Oportunismo político

“Quem é de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma tubaína” Jair Bolsonaro, na terça-feira, 19 (Crédito:Divulgação)

O oportunismo político não é exclusividade do atual mandatário. Também pode ser medido por seus antecessores. Enquanto a curva de mortes pela doença acelera, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou a tragédia para defender suas propostas para o País, ainda que seu partido tenha arruinado a economia nacional. “Ainda bem que a natureza criou esse monstro chamado coronavírus, porque está permitindo que enxerguem que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises”, disse. A repercussão negativa fez Lula pedir desculpas no dia seguinte, mas não desfez o mal-estar com o baixo nível atual do debate político.

RISCO A população ignora a quarentena em diversas regiões do País, o que aumenta a expansão da doença. Isolamento está em queda, obrigando prefeitos a decretarem o lockdown

PERIGO E CONSEQUÊNCIA O desrespeito à quarentena acontece em diferentes regiões e classes sociais. Doze capitais já têm ao menos 80% dos leitos públicos de UTI ocupados

O show de horrores bolsonarista não poderia ser previsto nem traduzido pelos grandes intérpretes nacionais, como Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Gilberto Freyre e outros. Em ensaios sobre a formação do Brasil, esses intelectuais descreveram com uma prosa elegante a gênese imperfeita do País. Todo esse corpo de conhecimento forjou a identidade nacional e ajudou o Itamaraty a criar uma das políticas externas mais elogiadas do mundo. Mas foi deturpado pela ideologia dos anos petistas e, agora, é aviltado pela indigência intelectual bolsonarista. Em 35 anos de redemocratização, o País permanece prisioneiro da armadilha do baixo crescimento e da balbúrdia política, ainda que suas instituições democráticas tenham mostrado resiliência. Dois dos cinco presidentes eleitos desde a redemocratização sofreram impeachment, e o atual mandatário já acelera acordos espúrios no Parlamento, rifando o discurso ético, com o objetivo de evitar o seu próprio impedimento. Essa é a nova prioridade de uma gestão que não completou nem 18 meses. O Brasil de Bolsonaro, como na canção, virou uma piada no exterior. Não pratica quarentena de verdade, não promove testes em massa, não tem presidente governando e nem ministro cuidando da Saúde. A nação retornou a uma época de crise econômica e cinismo, como os anos 1980, quando Renato Russo e Cazuza traduziram a falta de perspectiva e a indignação com a falência moral generalizada. Que País é esse?

DISCIPLINA Quase todos os países tiveram ações para o isolamento social. Suécia não adotou lockdown, mas orientou a população. China já encerrou a quarentena e retomou as aulas
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Henrique Barbosa