15 abr 2020

Antes de morrer, editor diz que SBT é “epicentro do Coronavírus no Rio”.

Em outro áudio, ele compara a Redação da emissora, que ele e outros funcionários dizem não ter nenhuma janela, ao templo coreano e ao mercado de Wuhan, dois pólos importantes de contaminação na Coreia do Sul e na China

Antes de morrer, editor diz que SBT é "epicentro do Coronavírus no Rio"

© Reprodução

POR FOLHAPRESS – FAMA – ÁUDIO

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Mesmo após as recomendações de isolamento da OMS e do Ministério da Saúde, o editor de imagem José Augusto Nascimento Silva, hipertenso, continuava trabalhando na Redação da rede de televisão SBT no Rio de Janeiro, um pequeno prédio amarelo de poucas e pequenas janelas no bairro de São Cristóvão, na zona norte carioca.

Após uma colega, que seguia trabalhando, dizer que seu marido apresentava sintomas da Covid-19, José Augusto pediu afastamento, que foi negado por ele não ter mais de 60 anos. Ele começou a sentir sintomas em 29 de março, mas só em 1º de abril conseguiu, com um atestado médico, ficar em casa. Internado desde a tarde do último dia 9, ele morreu na segunda-feira (13) vítima do novo coronavírus.

Ao longo dos cerca de 30 anos em que trabalhou na emissora, o responsável pelo acervo de vídeos, que tinha 57 anos, catalogou e organizou mais de 15 anos de reportagens.

Além de Naná, como José Augusto era conhecido pelos colegas e amigos, outros três funcionários do SBT do Rio foram internados. Nesta terça, um motorista teve alta, após três dias na CTI. Em vídeo gravado ainda da cama do hospital, ele agradece o apoio dos amigos de emissora. Um produtor de jornalismo também já está em casa, mas um auxiliar de câmera segue internado em estado grave.

Em um áudio enviado a colegas, gravado quando ele conseguiu o atestado médico de 14 dias, Naná diz que o SBT é “o epicentro do coronavírus no Rio”. Em outro áudio, ele compara a Redação da emissora, que ele e outros funcionários dizem não ter nenhuma janela, ao templo coreano e ao mercado de Wuhan, dois pólos importantes de contaminação na Coreia do Sul e na China.

Ele se mostrava indignado com o fato de a colega Isabele Benito, apresentadora do SBT Rio, jornal que vai ao ar na hora do almoço, ter seguido trabalhando. O marido de Benito estava com suspeita de Covid-19 desde o dia 21 de março, segundo o site Notícias da TV, mas ela só deixou de apresentar o telejornal no dia 27.

O marido de Benito foi internado e ficou cinco dias na CTI, enquanto a apresentadora, segundo ela diz em vídeo ao SBT, não teve sintomas, ainda que seu teste tenha dado positivo. Funcionários estimam entre 20 e 30 os afastados da equipe carioca do SBT, que conta com cerca de 100 pessoas, entre jornalistas, técnicos e pessoal do administrativo.

“[A emissora] fica preocupada que o show não pode parar, quando deveria estar preocupada com as vidas humanas”, diz Naná em um de seus áudios, aos quais a reportagem teve acesso.O SBT manifestou pesar pela morte de seu funcionário e disse, em nota, que adotou as medidas adequadas para a prevenção do contágio e enfrentamento da Covid-19, “atendendo as determinações dos órgãos de saúde e autoridades sanitárias”. A emissora diz ainda desconhecer a origem e circunstâncias dos áudios enviados por Naná a colegas.

O pai de Naná, seu Antônio, de 89 anos, viúvo de dois casamentos, morava com ele, além do cachorro Pipoca. Assim que teve o primeiro sintoma, Naná pediu que o pai fosse para a casa da outra filha, Gloria.

Em outro áudio, ainda em casa, quando já apresentava febre, falta de ar e ausência de paladar e olfato, Naná diz aos amigos estar bem, que a febre baixara, e que esperava que os colegas então internados, o auxiliar de câmera e o produtor, ficassem bem.

O sindicato dos jornalistas do Rio de Janeiro procurou o Ministério Público do Trabalho pedindo a fiscalização e interdição imediata da Redação do SBT. Segundo relatório enviado ao MPT, no qual o sindicato acusa a emissora de negligência, “até o princípio dos afastamentos [a Redação] não havia recebido limpeza adequada nem os equipamentos como computadores, teclados e mesas eram higienizados” e “até o dia 4 de abril nenhum empregado tinha álcool em gel, máscara e outro equipamento para evitar a contaminação”. O sindicato também diz ter notificado a emissora, sem ter resposta.

Segundo a Associação Brasileira de Imprensa, ela e também o sindicato dos radialistas do Rio e a Federação Nacional dos Jornalistas procuraram o MPT para denunciar as condições precárias de trabalho da emissora.

A promotora Luciene Vasconcelos, que está com duas denúncias de autores sob sigilo, diz que será realizada nesta quarta (15) uma audiência virtual com um representante do SBT e peritos do MPT, e que já foi pedido à Vigilância Sanitária uma inspeção sanitária na sede da emissora no Rio de Janeiro.

O SBT diz estar à disposição das autoridades.Nesta terça (14), os funcionários da emissora estão sendo avisados de que a partir de quarta (15) será obrigatório o uso de máscaras entre os trabalhadores. O aviso diz ainda que elas serão distribuídas a todos e indica, com imagens, como colocar e retirar o item de proteção.

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Reinhard Allan Santos