6 mar 2020

À espera de Obama.

Entenda por que o ex-presidente americano ainda não ingressou na campanha democrata para apoiar Biden.

Por Sandra Cohen

Barack Obama e o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, em foto de 2015 — Foto: AP Photo/Evan Vucci

Barack Obama e o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, em foto de 2015 — Foto: AP Photo/Evan Vucci

A espantosa recuperação de Joe Biden recompôs a fragmentada disputa democrata no duelo com Bernie Sanders, mas levanta também uma questão: por que o ex-presidente Barack Obama ainda não se envolveu na campanha para apoiar seu ex-vice, com quem manteve uma estreita parceria durante oito anos?

Biden amargou o fracasso retumbante nas prévias de Iowa, New Hampshire e Nevada. O desempenho inicial praticamente escanteou sua campanha, enquanto o senador Bernie Sanders ganhava impulso, ultrapassando-o nas pesquisas nacionais, e o magnata Michael Bloomberg corria por fora, ameaçando dividir os votos da ala moderada.

Quanto mais sua candidatura sangrava, mais se especulava sobre o silêncio do ex-presidente. Quanto mais os pré-candidatos se digladiavam e expunham as divisões no partido, mais a presença do líder democrata era evocada para o palco da disputa.

Biden justifica a ausência do ex-chefe: “Eu não acho que está na hora. Tenho que ganhar isso sozinho”, disse à rede ABC, antes da Superterça. A narrativa de sua campanha, contudo, é toda calcada na defesa do legado de Obama e na retomada das políticas que foram abandonadas pelo governo Trump.

Ambos parecem alinhados, não restam dúvidas sobre quem é o preferido de Obama. Ele telefonou para o ex-vice logo após a primeira vitória, na Carolina do Sul. Não teve o mesmo gesto com Sanders nas três prévias que conquistou.

O senador de Vermont frequentemente despreza o establishment democrata, mas procura excluir o antecessor de Trump de suas críticas. Tanto que, após a decepcionante Superterça, lançou um anúncio no qual o ex-presidente aparece tecendo elogios a ele.

Em sua campanha milionária, Michael Bloomberg também associou sua imagem à do ex-presidente, levando um quarto de entrevistados numa pesquisa de opinião a vincularem o apoio de Obama ao ex-prefeito de Nova York. O ex-presidente nada fez para desfazer o engano.

Obama e Sanders conversam na Casa Branca em foto de 2016 — Foto: AP Photo/Pablo Martinez Monsivais

Obama e Sanders conversam na Casa Branca em foto de 2016 — Foto: AP Photo/Pablo Martinez Monsivais

A realidade mostrou que Obama acertou em não intervir, seja para declarar apoio ou para desmentir equívocos. Assistiu de camarote à contenda partidária, resistindo aos apelos para que entrasse em campo para acalmar os ânimos.

Ele ainda deverá se manter à distância do combate, agora que o terreno está livre apenas para Biden e Sanders. Agiu assim em 2016, quando declarou apoio a Hillary Clinton somente depois que Sanders desistiu da candidatura.

A lógica é simples: um endosso prematuro ao ex-vice poderia reverter-se contra o próprio partido, em caso de vitória de Sanders. O provável é que ele só ingresse na campanha quando a disputa no campo democrata estiver encerrada. Antes disso, poderia contribuir para agravar ainda mais a cisão partidária.

Obama usará, então, sua liderança e influência para unificar o partido em torno do candidato escolhido para enfrentar seu verdadeiro adversário — o atual presidente americano.

Bernie Sanders e Joe Biden disputam as eleições presidenciais nos EUA

Bernie Sanders e Joe Biden disputam as eleições presidenciais nos EUA. (Clique e assista ao vídeo)

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Reinhard Allan Santos