23 jan 2020

Análise: seleção sub-23 joga como treina e agora precisa ajustar defesa para confirmar favoritismo.

– Se a gente fizer isso, a bola vai entrar. Confia em mim que o gol vai sair! – gritava o treinador.

Um dos ensaios consistia em acionar um dos pontas (Paulinho ou Antony), enquanto Pedrinho e Matheus Cunha se projetavam para a área para receber o cruzamento, de preferência à meia altura. Foi justamente assim que o Brasil abriu o placar diante do Uruguai, na última quarta-feira, e começou a construir a vitória por 3 a 1, que lhe garantiu a liderança isolada do Grupo B do Pré-Olímpico.

O lance não foi o único planejado na véspera e executado no clássico. Diante da Celeste, adversária mais dura da chave, a seleção sub-23 jogou como treinou e teve grande atuação.

André Jardine, técnico da seleção sub-23, no vestiário antes do jogo contra o Uruguai — Foto: Lucas Figueiredo / CBF

André Jardine, técnico da seleção sub-23, no vestiário antes do jogo contra o Uruguai — Foto: Lucas Figueiredo / CBF

Neste tempo em que clubes fecham praticamente todos os treinamentos, poder acompanhar os trabalhos táticos de André Jardine na seleção brasileira sub-23 tem sido um privilégio.

A proximidade permite entender melhor as estratégias do time e discernir até mesmo sobre o que deu errado por falta de preparação ou simplesmente por falha na execução.

Um exemplo: Jardine e seu auxiliar Gustavo Leal dedicaram boa parte do treino de terça-feira para ensaiar o posicionamento defensivo nas cobranças de escanteio. O treinador demonstrava preocupação com a bola parada uruguaia, inclusive em relação às batidas mais fechadas. Mesmo assim, foi desta forma que o Brasil foi vazado pela primeira vez no Pré-Olímpico.

O gol adversário veio quando o placar já estava 3 a 0 e o jogo se encaminhava para o fim, mas serve para reforçar o alerta: a Seleção precisa de ajustes defensivos.

Mesmo controlando a maior parte do jogo e terminando com um placar elástico, o Brasil sofreu sustos. O primeiro foi aos três minutos, quando Guga perdeu uma disputa pelo alto, Rossi foi lançado e acionou Ramírez dentro da área. Cara a cara com Ivan, ele pegou mal e mandou para fora.

Sair atrás logo no início da partida poderia ter custado caro.

Esta não foi a única vez que os uruguaios chegaram com perigo. Antes de falhar no lance do gol, Ivan já havia sido exigido em pelo menos três lances difíceis. Contra o Peru, na estreia, o Brasil passou sufoco no segundo tempo.

Ciente de que encontraria adversários fechados, esperando para contra-atacar, a comissão técnica canarinho priorizou os trabalhos ofensivos na preparação para o Pré-Olímpico na Granja Comary e também na Colômbia. Outro fator que ajuda a explicar os problemas na marcação é a falta de entrosamento no setor defensivo, cuja dupla de zaga não tinha sido testada anteriormente.

Zagueiro Robson Bambu na partida entre Brasil e Uruguai — Foto: Lucas Figueiredo / CBF

Zagueiro Robson Bambu na partida entre Brasil e Uruguai — Foto: Lucas Figueiredo / CBF

Apesar da necessidade de correções, o saldo do Brasil neste início de Pré-Olímpico é muito positivo. Ainda há muito potencial para evolução, mas a Seleção demonstrou mais consistência diante do Uruguai do que na estreia contra o Peru.

A volta de Matheus Cunha, desfalque no primeiro jogo por conta de um mal estar, influencia muito nesse crescimento. Além de ótimo finalizador, o atacante se apresenta bastante para o jogo, saindo da área para dar opções de passe e “arrastar” os zagueiros. Também é intenso e dificulta a saída rival – foi desta forma que ele roubou a bola e sofreu o pênalti do segundo gol.

Com um meio de campo extremamente dinâmico e criativo, com Bruno Guimarães e Matheus Henrique, e jogadores velozes e dribladores na frente, o Brasil consegue criar inúmeras oportunidades para marcar. Diante do Uruguai, ainda demonstrou que tem ótimo banco de reservas, com Pepê e Bruno Tabata entrando muito bem.

Não resta dúvidas que a seleção de André Jardine é favorita a ficar com uma das duas vagas sul-americanas nos Jogos de Tóquio. Contudo, para garantir presença no Olimpíada, será preciso treinar não só a defesa, mas também a humildade. Faltam cinco partidas.

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Reinhard Allan Santos