As substâncias estão dispersas em uma área de 8 mil m² e são encontradas na superfície ou a até três metros de profundidade.

Técnicos da Cetesb foram oito vezes ao continente gelado desde a explosão da base, que ocorreu em uma operação de transferência de combustível. A última visita foi em janeiro de 2019. O objetivo era coletar amostras de compostos orgânicos presentes no óleo diesel, principal responsável pela contaminação do solo.

As substâncias foram estudadas e sua área já é conhecida, mas poucas ações foram tomadas para retirar os poluentes. O governo federal ainda não definiu que método será usado para decompor o óleo, nem estabeleceu um prazo iniciar qualquer projeto com esta finalidade.

Patricia Iglesias, presidente da Cetesb, assinala que a companhia fez relatórios após cada operação, entregando o material ao Ministério do Meio Ambiente (MMA).

— Fizemos um trabalho contínuo para detectar os compostos presentes no óleo e investigar toda a área afetada pelo incêndio — explica. — Este foi o nosso papel. Agora, cabe ao governo acionar um plano de intervenção, que fará a limpeza do solo.

Área poluída pode ser maior

Segundo Patricia, é possível  que a região com poluentes no solo seja ainda maior, abrangendo também o entorno dos contêineres para onde foram levadas as pesquisas que não foram destruídas pelo fogo. Ainda assim, ela acredita que os cientistas não deveriam interromper os seus trabalhos:

— Seria contraproducente parar tudo. Já havíamos identificado os locais mais críticos.

O GLOBO pediu acesso aos relatórios, mas a Cetesb afirmou que a solicitação deveria ser encaminhada ao MMA, para quem a companhia prestou contas no trabalho de cooperação. O ministério não forneceu os documentos até o fechamento da reportagem.

O plano de intervenção, porém, ainda não foi formulado. Segundo Luiz Ernesto Trein, analista ambiental do Ibama, os esforços foram destinados à construção da nova estação, erguida sobre sua antecessora.

— A área contaminada está localizada exatamente onde foi construída a nova estação, junto ao canteiro de obras — revela. — Não havia condições de tomarmos iniciativas de intervenção no subsolo nesse período.

A nova estação foi construída em uma estrutura elevada, portanto o solo contaminado ainda é acessível. O Ibama consultou universidades sobre técnicas de biorremediação — ou seja, o uso de organismos vivos para remover o óleo acumulado no local. O instituto, porém, ainda não decidiu qual estratégia será adotada, já que a Antártica tem um ecossistema frágil e peculiar.

— Precisamos pesquisar que tipo de micro-organismo é o mais indicado para degradar o óleo. Na Antártica, há uma série de restrições sobre qual organismo devemos acolher. Não podemos usar o mesmo modelo de biorremediação aplicado no Brasil — assinala.

Para escolher a biorremediação adequada, o Ibama cogita recorrer a produtos químicos ricos em nitrogênio, como o fosfato e o potássio. Eles seriam usados como “adubos”, facilitando o desenvolvimento de micro-organismos capazes de destruir o óleo sem prejudicar o meio ambiente. Também é possível que o governo recorra à colaboração internacional.

Helena Spiritus, bióloga do Greenpeace, alerta que a Antártica “não é só gelo”, e sim um ambiente rico em biodiversidade, submetido a um “frágil equilíbrio”, inclusive na cadeia alimentar, o que pode afetar animais como baleias, focas e pinguins.

— Para remediar o derramamento de óleo ou de diesel, parte do solo teria que ser retirado, e isso, por si só, já é um impacto no ecossistema — explica. — A Antártica precisa ser mais estudada e protegida de atividades humanas que podem gerar abalos a longo prazo.