Segundo o premier, tudo indica que as caixas-pretas vão permanecer no Irã — Teerã havia se negado inicialmente a fornecer os equipamentos para a Boeing, mas já sinalizou que pode pedir ajuda ao exterior. Trudeau disse acreditar que investigadores de outros países terão acesso aos dados, e deixou claro que seu governo “não vai descansar” até que obtenha respostas.  Apesar das afirmações, o premier canadense considerou “cedo” para apontar culpados ou chegar a conclusões.

Horas depois, o porta-voz da Chancelaria iraniana, Abbas Mousavi, pediu ao governo do Canadá que compartilhe seus dados de inteligência com Teerã. Da parte do governo, o porta-voz Ali Rabiei afirmou que países que tinham cidadãos na aeronave poderão acompanhar a investigação — ele ainda pediu que a Boeing mande representantes para ajudar na análise da caixa-preta. Contudo, criticou as acusações de que o avião teria sido atingido por um míssil, dizendo que isso não passa de “guerra psicológica”. Por causa das sanções americanas, a Boeing precisa de uma autorização do governo para participar das investigações.

A avaliação inicial de agências de inteligência ocidental era a de que o avião teve um problema técnico e não foi alvo de um atentado ou um míssil.

A declaração do premier canadense veio logo depois de autoridades do governo dos EUA afirmarem à imprensa que acreditam na hipótese de que a aeronave tenha sido abatida pelo sistema de defesa antiaérea iraniano por acidente. Sem se identificar, um funcionário afirmou que foram identificados por satélite dois lançamentos de mísseis perto do horário em que o Boeing 737-800 caiu, seguidos por evidências de uma explosão.

Os representantes dos EUA, que não se identificaram, dizem que se tratou de um lançamento acidental dos mísseis. As informações não foram confirmadas oficialmente pelo governo. O presidente Donald Trump disse a jornalistas que “alguém pode ter cometido um erro”, e disse ter suspeitas de que “algo muito terrível pode ter acontecido”.

As autoridades iranianas convidaram a Junta de Segurança dos Transportes dos EUA para ajudar na investigação. Pelas normas internacionais sobre acidentes aéreos, o Irã tem o direito de comandar o inquérito e de negar ou autorizar a participação de outros países. No final da noite, o órgão confirmou sua participação no inquérito e disse que vai indicar um representante, mas sem especular sobre as causas. O Canadá também participará.

O voo PS752 da UIA decolou às 6h10 de quarta-feira (23h40 de terça-feira no horário de Brasília) do aeroporto Imam Khomeini, de Teerã, com destino ao aeroporto Boryspil, de Kiev. A decolagem aconteceu quase cinco horas depois do ataque iraniano a bases iraquianas que abrigam soldados americanos, que ocorreu à 1h20 de quarta-feira, no horário local. A hipótese aventada pelos funcionários americanos é que ele tenha sido confundido com um míssil ou drone dos EUA, que estaria agindo em represália à operação no Iraque.

Na entrevista, Trudeau foi questionado se os Estados Unidos teriam uma parcela de culpa pelo ocorrido, por terem assassinado o general iraniano Qassem Soleimani, razão do ataque iraniano às bases no Iraque, mas não respondeu.

Mísseis russos

Mais cedo, o governo da Ucrânia havia dito que investiga quatro cenários para a queda do avião ucraniano, incluindo um atentado terrorista e que a aeronave tenha sido atingida acidentalmente por um míssil da defesa antiaérea do Irã. Kiev disse que quer fazer buscas no local da queda para verificar se há destroços de um míssil russo usado pelos militares iranianos. As outras hipóteses são uma explosão do motor ou uma colisão com um drone.

Uma equipe de especialistas ucranianos chegou a Teerã antes do amanhecer para participar da investigação.

Nesta quinta-feira, a Organização da Aviação Civil (OAC) iraniana disse que o avião fez meia-volta para retornar ao aeroporto. “O avião desapareceu dos radares no momento em que atingiu uma altitude de 2.400 metros. O piloto não transmitiu nenhuma mensagem de rádio sobre circunstâncias incomuns”, disse a OAC no primeiro relatório da investigação preliminar do acidente. “De acordo com testemunhas oculares, houve um incêndio no avião que se tornou mais intenso.”

As testemunhas citadas pela OAC são pessoas em terra que observavam o avião decolar e outras que estavam em um avião que voava a uma altitude mais alta do que o Boeing no momento da tragédia. “O avião que se dirigia, a princípio, para o oeste para sair da zona do aeroporto virou à direita, devido a um problema, e estava voltando para o aeroporto quando caiu”, relatou a OCA.

O chefe da OAC, Ali Abedzadeh, considerou “ser cientificamente impossível” que o avião tenha sido abatido por acidente, e disse que dezenas de aviões nacionais e estrangeiros estavam sobrevoando o território do país naquele momento.

Informações na internet

Segundo o secretário do Conselho de Segurança da Ucrânia, Oleksiy Danylov, os investigadores pediram para procurar possíveis mísses russos após verem informações na internet. Ele referia-se a informações que circulam desde quarta-feira nas redes sociais iranianas que, supostamente, mostram destroços de um foguete russo terra-ar Tor-M1, tipo usado pelos militares iranianos.

O presidente ucraniano, Volodimyr Zelenski, alertou contra todas as “especulações” sobre a tragédia. Nesta quinta-feira, Zelenski decretou um dia de luto nacional e prometeu estabelecer “a verdade” sobre o episódio.   Zelenski, disse que falou com o colega do Irã, Hassan Rouhani, e que este lhe garantiu que especialistas do seu país terão “acesso completo” à investigação.

Segundo a diplomacia ucraniana, havia 82 iranianos, 63 canadenses, dez suecos, quatro afegãos e três britânicos a bordo do Boeing. Outros 11 eram ucranianos, incluindo nove tripulantes. A CAO indicou que 146 passageiros tinham passaporte iraniano; 10, passaporte afegão; cinco, passaporte canadense; quatro, sueco; e 11, ucraniano.

A diferença é explicada pela presença de inúmeras pessoas com dupla nacionalidade, que entram na República Islâmico com seu passaporte iraniano.

Este é o primeiro acidente fatal da Ukraine International, uma empresa que pertence, em parte, ao oligarca Igor Kolomoiski, conhecido como próximo ao presidente Zelenski. Afetada por um escândalo em torno de seu 737 MAX, a Boeing disse que está “disposta a ajudar por todos os meios necessários”.