A investigação requerida pelo Conselho também vai levantar se Marcelo detalhou ao MPF, durante a assinatura do acordo de colaboração, o recebimento desses recursos, do VGBL e as demais garantias exigidas pelo executivo da empresa de sua família. Advogados consultado pelo GLOBO avaliam que a não declaração desse patrimônio ao MPF não tem necessariamente força para anular o acordo de colaboração assinado por ele, que reduziu seu tempo de pena. Mas o acordo pode ser anulado, dizem os advogados, se as novas investigações mostrarem que Marcelo mentiu na colaboração sobre crimes cometidos por ele ou outros executivos do grupo.

— Na minha avaliação, uma rescisão do acordo só seria possível se Marcelo tivesse mentido sobre crimes cometidos por ele ou por executivos do grupo. O mero recebimento de recursos para fazer a delação, no meu entender, não é problema, salvo se houver uma cláusula clara nesse sentido no acordo. Ao oferecer esses benefícios a um executivo do grupo, a empresa pode querer legitimamente incentivar seus funcionários a colaborar com a investigação — diz um advogado especialista em acordos de delação de um grande escritório de São Paulo, que prefere se manter no anonimato.

O rompimento entre Marcelo e seu pai aconteceu em 2015, depois que ele foi condenado a 19 anos e 4 meses de prisão por crimes de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Com o acordo de colaboração, Marcelo cumpriu pena em regime fechado por dois anos e meio, passou ao regime de prisão domiciliar e obteve a progressão para o semi-aberto, em setembro passado.

Na semana passada, as desavenças entre Emilio e Marcelo, segunda e terceira geração da família Odebrecht, ganharam um novo capítulo. Marcelo foi proibido de entrar na empresa por ordem expressa do pai e, com a demissão, perdeu direito ao uso de advogados, assessor de imprensa e motorista que eram pagos pela Odebrecht. Em nota, Marcelo disse que sua demissão é apenas a demonstração inequívoca “de mais um ato de abuso de poder do atual presidente da Odebrecht S.A. que, na tentativa de paralisar a apuração pelo compliance de fatos que lhe atingem e que deveriam estar protegidos por sigilo, retalia o denunciante como forma de intimidá-lo”.