24 jul 2019

Weintraub diz que protesto contra ele foi de ONGs que ‘caçam vagabundos, põem cocar e dizem que são índios’.

Ministro da Educação, que foi alvo de manifestação ontem enquanto jantava com a família em Alter do Chão (PA), ganhou ato a seu favor hoje

Bruno Alfano

Grupo fez ato pro-Bolsonaro um dia depois de protesto contra ministro Foto: Reprodução

Grupo fez ato pro-Bolsonaro um dia depois de protesto contra ministro Foto: Reprodução

RIO — O Ministro da Educação, Abraham Weintraub , afirmou nesta terça-feira que os protestos contra ele na noite anterior, em Alter do Chão, no Pará, foram organizados por ONGs internacionais.

Weintraub, que está de férias, jantava com a família num restaurante quando foi abordado por um grupo de manifestantes na praça central da ilha.

Irritado, ele se levantou, pegou um microfone e discursou, mas acabou vaiado e aumentou a confusão. Nesta terça, ele deu uma entrevista a veículos locais sobre o episódio, atribuindo-o a ONGs internacionais.

— É muito bonito aqui. É Brasil. O que aconteceu comigo e com a minha família, covardemente feito com as minhas crianças, não tem nada a ver com o Brasil e o brasileiro que a gente conhece. São ONGs internacionais que estão aqui, ficam caçando vagabundo, põem cocar na cabeça e dizem que é índio.

O ministro afirmou que as ONGs teriam mobilizado os manifestantes de forma “totalmente artificial” e atacaram de surpresa.

Ministro ganha apoio

Nesta terça, Weintraub ganhou apoio de um grupo pró-Bolsonaro, que organizou um ato no mesmo local em que o ministro foi confrontado um dia antes.

Um carro de som parou na praça onde houve a confusão na véspera e discursou contra a esquerda e a favor do combate à “doutrinação nas escolas e nas universidades”.

O ministro tirou uma semana para descanso e viajou para Alter do Chão. Na entrevista à mídia local, ele elogiou a localidade — distrito de Santarém, muito conhecido por suas praias de rio— e fez questão de dissociá-la dos protestos.

— Isso não faz parte da realidade de Alter do Chão. Podem vir tranquilos. Não é um antro de drogas, não é um antro de gente de esquerda que quer fazer bagunça, balburdia. É seguro, é bonito. É Brasil, gente — afirmou Weintraub.

Ativistas dizem que não queriam humilhar

Lá, um grupo de ativistas do Engajamundo , uma organização social que atua no país inteiro, organizou uma manifestação.

De acordo com uma colaboradora, a intenção era que fosse pacífica e bem-humorada: duas mulheres segurando cartazes bem ao lado da mesa de Weintraub ofereceram uma kafta, em alusão ao episódio em que o titular da pasta confundiu o autor  Kafka com o típico prato árabe  .

— A gente nunca quis hostilizar nem humilhar — afirmou Hellen Joplin, colaboradora da ONG, que mobiliza jovens quilombolas e ribeirinhos da região. — Quandou soubemos que ele estaria aqui, resolvemos fazer um protesto bem-humorado (contra os  cortes na educação  ) e pensamos em servir a kafta.

O ministro saiu da mesa, pegou um microfone (de uma dupla de cantores que havia parado a apresentação momentos antes) e fez um discurso.

— Estou com a minha família aqui, três crianças pequenas, nunca roubei, não sou do PT, pago do meu salário, trabalhei a vida inteira com carteira de trabalho, nunca recebi bolsa. E aí vocês vêm tentar me humilhar na frente dos meus filhos, é isso que vocês são? — perguntou Weintraub, que emendou: — Não tenho passagem na polícia igual aos petistas. Não sou uma figura pública. Eu parei a minha vida para arrumar a bagunça que os petistas fizeram.

— Foi ele que ficou agressivo e estava completamente desequilibrado. Chegou a subir na cadeira em praça pública pra ficar mais alto que todo mundo, gritando com indígenas — relatou Hellen.

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Reinhard Allan Santos