6 jun 2015

O revolucionário de pijama – Ruy Castro (*).

RIO DE JANEIRO – Um vídeo postado esta semana na internet mostra João Gilberto em seu apartamento no Leblon, acompanhando ao violão sua filha Luisa Carolina, de nove anos, enquanto ela canta um singelo “Garota de Ipanema”. Leva menos de 40 segundos e foi feito numa sala fechada –enxerga-se pouco e escuta-se menos ainda. Mas tem algo enternecedor: João Gilberto está de pijama, de um xadrez suave.

Ele completa 84 anos na próxima quarta-feira (10). Para os jovens que assistem ao vídeo, deve ser difícil acreditar que, em 1958, há 57 anos, este senhor de pijama e chinelos surgiu na praça com uma batida de violão aparentemente incompreensível e um jeito de cantar quase inaudível para os padrões vigentes –um estilo que dividiu a música popular, não deixou ninguém indiferente e, no final, revelou-se vitorioso em escala planetária.

Mas como aceitar um revolucionário de pijama? Não se trata nem da modéstia do traje, embora o de João Gilberto pareça muito bem cortado e de uma flanela de primeira. É o fato de este homem não estar se apresentando, até hoje, para as plateias que gostariam de ouvi-lo, e que são muitas, ou gravando discos que nos abasteceriam para sempre. E porque, ao respeitar o seu silêncio, fazemos de conta que ele já não existe.

Sua cidade natal, Juazeiro, na Bahia, de onde foi adolescente para Salvador e, dali, para o Rio, em 1950, vai homenageá-lo no seu aniversário. O evento se chamará “Viva João” e constará de música, poesia e memórias a seu respeito. João Gilberto não vai a Juazeiro há muitos anos. Mas os juazeirenses não o cobram por isso –como cobrar mais de quem já se deu tanto? Sabem também que ele nunca saiu de lá.

E que sua voz, seu violão, a bossa nova e o respeito mundial foram apenas sonhos do menino à beira do São Francisco, que João Gilberto nunca deixou de ser.

(*)  É escritor e jornalista. Considerado um dos maiores biógrafos brasileiros, escreveu sobre Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda.

Compartilhe esta notícia:
Henrique Barbosa