12 ago 2017

Sílvio quer o SBT vendido por último.

Ao dar todas as suas empresas para salvar o Panamericano, apresentador pediu ao Fundo Garantidor que a TV só fosse liquidada em último caso. Gabriel Jorge Ferreira, presidente do conselho do FGC, diz que a operação de resgate era a única saída para Silvio
Leandro Modé e David Friedlander

O único pedido de Silvio Santos nos 26 dias em que negociou socorro financeiro para o Panamericano foi a permissão para vender o SBT por último. Em troca de R$ 2,5 bilhões ao banco, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) exigiu todo o patrimônio do apresentador como garantia – e compromisso de que as empresas sejam vendidas nos próximos anos até a liquidação da dívida.

Silvio foi atendido e poderá vender a emissora de televisão no último dos dez anos que terá para devolver o dinheiro. Gabriel Jorge Ferreira, presidente do conselho do FGC, diz que a operação de resgate era a única saída para Silvio, porém foi importante também para o sistema financeiro.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida.

Como o sr. reagiu ao saber do problema no Panamericano?
Fiquei sabendo pelo Antonio Carlos Bueno, que tinha sido procurado pelo controlador (Silvio Santos). Tenho 50 anos de mercado e já passei por várias situações. Reagi profissionalmente.

O sr. não chegou a perder sono por causa disso?
Durmo pouco e o pouco que durmo, durmo bem. Mas claro que a gente fica pensando na melhor forma de conduzir uma operação dessas.

Qual a perspectiva de receber o dinheiro de volta?
A garantia é formada pelas empresas do Grupo Silvio Santos. Os balanços dessas empresas são auditados. É óbvio que não foi feita uma avaliação econômica, que levaria tempo, mas o valor consolidado das empresas é em torno de R$ 2,7 bilhões. Portanto, com margem em relação ao que foi adiantado.

Dá para confiar no balanço das empresas do Silvio Santos depois de tudo que aconteceu?
Acho que você tem de acreditar nos balanços apresentados. Não temos nenhuma razão para deixar de acreditar que a avaliação das auditorias reflete a situação das empresas.

O Banco Central culpou as auditorias por não terem detectado as fraudes no Panamericano?
Não vi o BC dizer isso. Mas, para saber se o auditor falhou ou se houve omissão, é preciso um trabalho de auditoria para entender o que aconteceu.

Houve falhas na auditoria?
Não tenho a menor condição de dizer o que aconteceu. Esse auditor especificamente tem reputação boa no mercado, já auditou grandes empresas e tem um desempenho normal.

Qual foi a justificativa do BC quando procurou o FGC para sugerir a operação?
A operação de empréstimo está expressamente autorizada no estatuto do FGC. Nunca tinha sido aplicada porque não havia surgido nenhum caso que a justificasse. É uma situação especial porque o acionista controlador estava altamente descapitalizado e o BC disse: ‘Ou você capitaliza ou busque outra solução’. Por sugestão do BC, ele procurou o fundo e veio expor a situação em que se encontrava o Panamericano.

Havia outra alternativa?
A alternativa que o Banco Central usava antes seria a liquidação. Decretar a liquidação você sabe muito bem o que é: traria um trauma para o mercado, perda de confiabilidade no sistema financeiro, a percepção externa ruim… O Panamericano não era uma instituição de grande porte. Tinha um porte importante, um porte médio. Era uma instituição de visibilidade no mercado em que atuava. Então, seria altamente danoso para o sistema financeiro, para a economia brasileira, se houvesse um incidente como a decretação da liquidação ou de intervenção.

Nos EUA, a quebra de um banco relativamente pequeno desencadeou a crise global. A liquidação do Panamericano pode desencadear uma crise sistêmica?
Qualquer quebra de instituição abala, ao menos num primeiro momento, a estabilidade do sistema. É sempre um fator de perturbação. A quebra de um banco é diferente da quebra de uma empresa convencional. Quando quebra uma empresa comercial ou uma indústria, os fornecedores e os credores são os únicos atingidos. Com uma instituição financeira, toda a economia sofre. Empresas que tinham recursos depositados podem ficar sem ter como honrar seus compromissos. Isso pode provocar um efeito dominó. Esse banco, se tivesse sido liquidado, viraria uma grande insegurança, afetando principalmente as instituições financeiras de pequeno e médio porte.

Não necessariamente porque tenham algum problema, mas por causa da desconfiança?
Exatamente. Todo mundo adotaria atitudes conservadoras e começaria a retirar recursos dessas instituições, migrando para maiores, como ocorreu em outros momentos de crise. As instituições pequenas e médias têm um histórico de muita eficiência. Ocuparam espaços importantes no mercado. Por exemplo, o crédito consignado, que hoje é o grande produto de crédito, foi iniciado pelos bancos pequenos.

O fundo vai ajudar o Grupo Silvio Santos a vender os ativos?
Não. Como titular das garantias, o fundo tem interesse em que essa venda seja feita da forma mais eficiente possível. Isso significa obter um resultado na realização bastante expressivo, de forma a possibilitar o retorno do empréstimo feito. Aconselhamos o empresário (Silvio Santos) a procurar empresas especializadas nesse tipo de negócio. Vale frisar: não é só a instituição financeira que será vendida. Todas as participações societárias entregues em garantia deverão ser vendidas. O que há – isso é um pedido dele – é que o SBT será a última companhia a ser vendida. Ficou muito claro que ele poderá iniciar o movimento de venda (do SBT) no último ano do prazo de dez anos.

Como disse ao longo da semana, o sr. acredita mesmo que o banco será o primeiro desses ativos a ser vendido?
Sem dúvida. O empresário (Silvio Santos) tem a clara percepção de que o negócio financeiro requer uma administração altamente qualificada.

Depois disso tudoável em tempo relativamente pequeno. O FGC não vai procurar compradores, mas já tivemos sondagens de possíve, vai haver comprador?

Não tenho dúvida. A instituição estará muito saudis interessados na aquisição. Pedimos que se dirigissem ao controlador.

Por que a Caixa não compra de uma vez o banco?
A Caixa não quer criar mais uma instituição financeira pública. Tomou decisão estratégica de comprar posições minoritárias.

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Henrique Barbosa