18 jun 2017

Rainhas da ‘montação’, novas drag queens expandem limites do humano.


JOÃO CARNEIRO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
As drag queens tomarão a avenida Paulista durante a Parada do Orgulho LGBT neste domingo (18). No resto do ano, é na noite paulistana que se encontram essas personagens que borram as fronteiras entre masculino e feminino.

Na cena da música eletrônica, alguns desses artistas têm desafiado outros limites, criando “monstras” que colocam em dúvida a própria definição do “humano”. A reportagem conversou com Alma Negrot e Ivana Wonder, encarnadas pelos artistas Raphael Jacques, 21, e Víctor Ivanon, 23.

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CIBORGUE

Alma Negrot é “ciborgue voodoo queen, sedenta de vida, programada para operar como um terremoto.” Uma mistura de “identidades marginais”, Alma se reveste de lixo, brilhantes, sucata, glitter, barbante e tinta, muita tinta.

O artista visual Raphael Jacques encarna a “pintura em movimento” em performances de dança em festas como Mamba Negra, de música techno, e Metazoa, de hip-hop, rock e funk.
Alma é monstruosa mas erótica, delicada mas grotesca. Alterna movimentos sedutores com gestos animalescos. Ela assume plenamente a ambiguidade de seu corpo -pode terminar uma performance com o pênis à mostra.

Raphael teve o primeiro contato com o universo das drag queens quando trabalhava na recepção de um inferninho com sauna gay em Porto Alegre (RS). Incomodado com a reclusão da “montação” dentro do ambiente sigiloso, decidiu levar sua personagem à rua, promovendo festas itinerantes nas praças da cidade.

A “montação” alimentou seu trabalho como maquiador e o aproximou de outros artistas. Alma Negrot integra o coletivo Drag-se, do Rio, que promove festas e discussões sobre gênero.

CLOWN

Na primeira vez que resolveu se “montar”, o estudante de design Víctor Ivanon, 23, comprou vestido, peruca e se depilou inteiro. Começou a se vestir, mas, ao se ver no espelho, decidiu nem sair de casa. “Eu não sou isso”, pensou.

Ivana Wonder nasceria depois, mais andrógina, sem peruca ou enchimento. Uma tatuagem na perna relembra: “Stay ugly”. Traduzindo: “permaneça feia”, ou, segundo Ivana, não se esforce para ser quem não é.

Ivana é mais “clown” do que drag queen. Um palhaço de ópera melancólico, com bochechas marcadas, lábios exagerados e lágrimas pintadas sob os olhos, como Pierrot, combinado com roupas de um glamour oitentista.

Sua voz grave ecoa em performances em festas de música eletrônica, como ODD e Tenda. Antes de encarnar Ivana na noite paulistana, Víctor cantava no coral de uma igreja em Sertãozinho (SP), sua cidade natal (a 337 km de SP).

Segundo ele, a personagem funciona como escudo, um alter ego sem travas e traumas. “Sem a Ivana, eu teria menos ímpeto para cantar.”

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Henrique Barbosa