7 dez 2017

Prisão de chefe da Rocinha pouco abala o tráfico no Rio.

Logo outro traficante assumirá o posto de Rogério 157 na batalha contra a polícia e as facções rivais, que aterroriza a cidade nos últimos meses.

HUDSON CORREA

Traficante mais procurado do Rio de Janeiro, Rogério 157 foi preso nesta quarta-feira (6) (Foto: Fabiano Rocha /Agência O Globo)

O traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, foi preso dentro do porta-malas de um carro que deixava a favela da Rocinha, situada na Zona Sul carioca, numa noite de novembro de 2011. Policiais fizeram fotos ao lado do preso empolgados com a queda do então chefe do tráfico na favela da Rocinha, naquela época o bandido mais procurado do Rio de Janeiro. Na manhã desta quarta-feira (6), uma cena muito parecida se repetiu. A Polícia Civil prendeu Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, o novo chefe da Rocinha e o criminoso mais procurado da vez. Ele se escondia na favela do Arará, na Zona Norte. Quando a polícia chegou, 157 fugiu para a casa vizinha, deitou na cama e se enrolou num cobertor. Não adiantou. Os policiais sabiam quem ele era.

Prender um bandido importante é sempre bom, mas a realidade diz que a captura de Rogério 157 abala muito pouco o violento tráfico de drogas no Rio, da mesma forma que a prisão de Nem seis anos atrás quase nada mudou. Nem continuou a comandar a venda de drogas na Rocinha de um presídio em Rondônia, a 3.500 quilômetros de distância. Ele indicou Rogério 157 como seu sucessor. O rompimento entre os dois provocou uma guerra na Rocinha iniciada em setembro passado. Acirrou mais a guerra entre as três facções criminosas do Rio. O Comando Vermelho (CV), para o qual 157 se bandeou, e a Amigos dos Amigos (ADA), chefiada por Nem, disputam o território de inúmeras favelas cariocas, a Rocinha principalmente. O Terceiro Comando Puro (TCP) se associou à ADA contra o CV, inimigo comum.

Casa pichada com referência a Rogério 157 e á  ADA,facção que domina o  orro (Foto:  Ana Carolina Fernandes/ÉPOCA)

Após a prisão de 157, outro traficante logo assumirá o posto na batalha contra a polícia. Nunca faltaram soldados para ocupar a chefia. Além disso, a cadeia dificilmente impedirá Rogério 157 de transmitir ordens a seus comparsas em liberdade ou de colaborar com o Comando Vermelho. O tráfico sofreria de fato algum abalo, se perdesse o controle das favelas dominadas a poder de fuzil. A partir de 2010, o governo do Rio aplicou inúmeros golpes às facções criminosas com a retomada dessas comunidades, verdadeiros territórios sem lei dentro da cidade. Nos últimos meses, os traficantes voltaram à ofensiva porque as Unidades de Polícia Pacificadora, instaladas nos morros, faliram abandonadas por um governo corrupto.

Por uma dessas coincidências que se vê no mundo do crime, Rogério 157 foi preso na favela vizinha à cadeia pública de Benfica, onde estão trancafiados os responsáveis pelo esquema de corrupção que faliu o Rio, entre eles o chefão, o ex-governador Sérgio Cabral. Em 2011, quando 157 ascendeu no tráfico ao assumir o lugar de Nem, Cabral era governador e se gabava das UPPs (sabe-se hoje que também rodava um esquema de corrupção para lá de grande). Isso parece bom. Uma coisa, no entanto, piorou de lá para cá: os policiais que prenderam Rogério 157 se prestaram ao ridículo de fazer uma sessão de selfies com o traficante. Rogério entrou no embalo e até sorria ao fundo, como um protagonista. Deve saber a razão.

 

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Henrique Barbosa