14 abr 2018

BNDES prometeu ajuda a Marcelo Odebrecht.

Luciano Coutinho e Marcelo Odebrecht (Foto: Agência Brasil e Heuler Andrey/AFP)

Material obtido pela Polícia Federal revela pressão da Odebrecht por financiamentos do banco e vai abrir nova frente de investigação no caso
AGUIRRE TALENTO

A Polícia Federal obteve e-mails que revelam pressão e lobby da Odebrecht em troca de recursos bilionários do BNDES. O material foi obtido com a apreensão de um computador do ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho, em maio do ano passado, e revelado com exclusividade por ÉPOCA na edição desta semana. Nas mensagens, Coutinho chega a prometer a Marcelo Odebrecht que se empenharia a destravar um financiamento para a empreiteira, referente às obras da Arena Corinthians, o Itaquerão. O material será usado pelos investigadores para abrir uma nova frente de investigação na Operação Bullish, desta vez sobre a Odebrecht –inicialmente, os investigadores miravam os aportes na JBS.

Nos preparativos para a Copa do Mundo no Brasil, a Odebrecht se comprometeu a construir o estádio do Corinthians, mas pressionava o governo por um auxílio financeiro. O BNDES formatou uma operação de empréstimo de R$ 400 milhões. Seria liberada indiretamente via Banco do Brasil – este, porém, estava fazendo diversas exigências que irritaram a Odebrecht e travaram a liberação dos recursos.

Marcelo, então, recorreu a Coutinho, em diversas trocas de mensagens. Às 10h57 de 22 de setembro de 2012, o empresário enviou um e-mail com o assunto “Estádio SP”. “Faz exatamente seis semanas que estamos esperando do BB e BNDES uma proposta para o clube para que a Odebrecht assuma a gestão comercial e operacional do estádio em uma condição que seja aceitável para o clube (…). Estou quase implorando de joelhos esta proposta da equipe do BB e BNDES e não consigo tirar ela”.

Poucos minutos depois, às 11h05, Luciano Coutinho respondeu: “Vou conversar com minha equipe e com o BB já nesta 2af (segunda-feira). Depois chamo uma reunião geral. Vamos ver se é possível convergir”. Marcelo respondeu: “Obrigado. Vc é nossa tábua de salvação”. Em sua delação, o empreiteiro afirmou que pediu diretamente à presidente Dilma Rousseff que retirasse o Banco do Brasil da operação financeira e colocasse a Caixa Econômica Federal como intermediária do repasse do BNDES. Em novembro de 2013, o Corinthians e a Caixa fecharam o acordo para destravar o empréstimo do BNDES.

Marcelo Odebrecht também pressionou Coutinho a liberar aportes para a Odebrecht Agroindustrial em 2014, ano eleitoral. O assunto não apareceu na delação premiada do empresário. Em 22 de janeiro de 2014, Marcelo escreveu um e-mail para Coutinho: “Desculpe o longo documento anexo, mas a situação da ODB Agro, notadamente por conta da absorção dos ativos Brenco e política do governo para o setor, chegou a um ponto realmente crítico, e não podemos deixar de tomar medidas urgentes, ainda que drásticas, para preservar a Odebrecht e sua capacidade de investimento”. No longo documento encaminhado em anexo, Marcelo detalhou as dificuldades financeiras da empresa agroindustrial e pediu que o BNDES fornecesse um financiamento de longo prazo de R$ 860 milhões, mais um aporte de R$ 1 bilhão via aumento de capital do BNDESPar, sócio do grupo.

O caso só se resolveu no fim daquele ano, quando a Odebrecht Agroindustrial conseguiu captar, por meio da emissão de títulos de dívida, R$ 2 bilhões do BNDESPar. A operação ocorreu perto das eleições.

No relatório de análise do material, a Polícia Federal considerou que esses e-mails comprovam “influência particular na atuação do BNDES” e mostram que “houve a possibilidade de influência política nas decisões técnicas”, envolvendo tanto a Odebrecht como outras empresas. Para a PF, a constante troca de e-mails entre Marcelo Odebrecht e Luciano Coutinho “contradiz a maneira de condução institucional do BNDES por parte do presidente do banco estatal. Em seu depoimento, Luciano Coutinho afirma que não atende a demandas de empresários e que não há influência na equipe técnica, mas não é isso o que (está) demonstrado”.

Em nota, a assessoria de Luciano Coutinho afirmou que os pleitos de empresários “sempre foram remetidos por Luciano Coutinho às instâncias técnicas pertinentes do BNDES. A orientação do ex-presidente sempre foi a de que os pleitos recebessem tratamento rigorosamente institucional, conforme as regras e procedimentos regulares do banco, sem qualquer tratamento privilegiado ou diferenciado. Foi o que ocorreu nos episódios mencionados”. À PF, ele disse que não cabe ao presidente do BNDES acompanhar as discussões técnicas dos projetos em análise no banco e que nunca recebeu pressão política para favorecer alguma empresa. A Odebrecht não comentou.

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Henrique Barbosa