12 nov 2017

Analogias com trabalho escravo revelam distanciamento de autoridades com realidade do país.

Especialistas repercutem falas de Luislinda e Gilmar Mendes: “Parece que vivem em outro planeta”.

Jornal do Brasil – Felipe Gelani*

“Que descolamento de realidade é essa em que eles vivem? Esse tipo de comparação é absurda. São autoridades ligadas à Justiça e abordam com ironia a questão do trabalho escravo no país”, critica a professora de Psicologia da Universidade Federal Fluminense Cecília Maria Bouças, sobre os recentes comentários da ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois, e do ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. Com trabalhos publicados na área de comportamento político e Direitos Humanos, a especialista se refere aos comentários em que ambas as autoridades relacionaram, de alguma forma, suas funções profissionais ao trabalho escravo.

Valois reclamou do teto constitucional que limitou seus vencimentos a R$ 33,7 mil, apesar de ela acumular a aposentadoria de desembargadora com a função de ministra dos Direitos Humanos. Ela queria ter o direito aos dois vencimentos integrais, chegando a R$ 61,4 mil. Com os descontos em seu contracheque de ministra, ela afirmou que “sem sombra de dúvidas” a situação se assemelha ao trabalho escravo.

"Eu, por exemplo, me submeto a um trabalho exaustivo, mas com prazer. Eu não acho que faço trabalho escravo", disse Gilmar Mendes

“Eu, por exemplo, me submeto a um trabalho exaustivo, mas com prazer. Eu não acho que faço trabalho escravo”, disse Gilmar Mendes

Já Gilmar Mendes, ao falar sobre as novas regras para fiscalizar a utilização de trabalho escravo no país, disse, em defesa do texto da portaria, que apesar do trabalho feito por ele ser “exaustivo”, não considera que se submeta a um “trabalho escravo”.

“Eu, por exemplo, me submeto a um trabalho exaustivo, mas com prazer. Eu não acho que faço trabalho escravo”, disse Gilmar.

A portaria que instituiria as novas regras foi fortemente criticada por organizações que lutam contra a prática, sendo posteriormente suspensa pela ministra do STF Rosa Weber.

“São declarações absurdas e que ignoram toda a realidade brasileira”, disse a professora. Ela utilizou como exemplo a série de manifestações e protestos contra as más condições de trabalho e baixos salários de funcionários de uma rede de supermercados. “É só a gente olhar para o lado: os funcionários de uma rede de supermercado estão tentando fazer greve por condições mais justas e não conseguem. Temos trabalho escravo no Brasil com conivência do próprio Congresso.”

De acordo com ela, declarações como as dos ministros são consequências de uma desconexão, um descolamento cada vez maior entre as autoridades e a sociedade. “Essas pessoas parecem que vivem em outro planeta. Não conseguem enxergar a realidade do trabalho que atinge a população do Brasil. Essas pessoas ainda acham que recebem mal?”, ressaltou.

“Trabalho estafante fazem também os médicos, que trabalham sem materiais e equipamentos necessários. Trabalho estafante fazem os professores, cujas condições chegam a ser revoltantes, indignas. Para uma pessoa que ocupa um cargo desses – no qual é fundamental conhecer a realidade em que vive – dizer coisas como essas é um acinte à realidade brasileira”, completou.

A professora também traçou um perfil sociológico que pode ajudar a explicar esse tipo de comportamento, ao comentar sobre a judicialização da política. “Sabemos que nesse país tudo vai sendo judicializado, e o poder está sendo cada vez mais concentrado na mão do Judiciário com a descrença do povo nos outros poderes. [O filósofo Michel] Foucault chama isso de judicialização da vida, biopoder.”

De acordo com o influente filósofo francês Michel Foucault, “biopoder” são práticas e legislações governamentais de controle e subjugação do povo por meio de técnicas diversas. Uma delas seria, por exemplo, a transferência de poder para classes consideradas socialmente menos impopulares em momentos de crise – como o Judiciário –, com o objetivo de manter o controle. Movimentos como a judicialização da política e fatos como a instituição de portarias que facilitariam o “trabalho exaustivo”, também seriam sintomas desse fenômeno.

“Em uma sociedade como a nossa, capitalista, na qual o poder da Justiça aumenta cada vez mais sobre a vida de todos os indivíduos, é natural que essa elite aja dessa forma. E nós pedimos cada vez mais Justiça”, concluiu.

* do projeto de estágio do JB

 

Compartilhe esta notícia:
Henrique Barbosa