17 jun 2017

A irresponsabilidade sustenta Temer.

andré singer (*)
Max Weber percebeu que, diferentemente de outras atividades humanas, a política tem compromisso essencial com o dia de amanhã. Por controlar um recurso único e definitivo —a violência—, aquele que detém as rédeas do Estado precisa pensar sempre, com profundo sentido de responsabilidade, na consequência efetiva de suas ações.

O problema é que os partidos e lideranças que construímos desde a redemocratização só estão conseguindo fazer cálculos pequenos. Olham apenas os interesses particulares, sem oferecer direção maior à sociedade. Não é de estranhar que estejamos todos batendo cabeça, sem rumo.

A nota divulgada por Fernando Henrique Cardoso na última quarta-feira tem ao menos a vantagem de apontar o fato. Nela, o ex-presidente, inegavelmente uma das vozes mais ouvidas do país, reconhece que “no calor dos embates diários e de declarações dadas às pressas” tem sido pouco claro e hesitante.

Ora afirma que antecipar o pleito direto é golpe, depois assinala que chamar eleições gerais pode ser gesto de grandeza por parte de quem está agora na cadeira presidencial. Chegou a afirmar, no meio da semana, que “se tudo continuar como está […] não vejo como o PSDB possa continuar no governo”. Mas ontem, em entrevista publicada pelo “Estado de S. Paulo”, evitou condenar a decisão da Executiva peessedebista que, segunda passada, escolheu permanecer com Michel Temer.

A decisão dos tucanos parece corresponder apenas ao desejo de agora enfraquecer o Partido da Justiça que tantos serviços lhes prestou para dinamitar o PT e impedir Dilma Rousseff. Pego na mesma operação Friboi que incriminou Temer, o ainda presidente afastado dos tucanos, Aécio Neves, teria influenciado a direção partidária. Como se sabe, a ele convém derrotar o procurador-geral Rodrigo Janot na luta que este trava contra a máquina do Executivo federal.

Até as pedras reconhecem que o neto de Tancredo tem um único e específico objetivo na empreitada: salvar a própria pele. Geraldo Alckmin, igualmente enrolado na Lava Jato, possui muito a ganhar se o ímpeto investigatório for quebrado neste momento. Além disso, abrir a possibilidade de uma eleição imediata, quando Lula pode ser candidato, não convém aos sonhos presidenciais, ainda preservados, do governador paulista.

É verdade que outros atores presentes no cenário —veículos de comunicação, líderes do próprio Judiciário, setores empresariais, segmentos de classe média— vêm dando a sua contribuição para manter no palácio um mandatário apanhado em flagrante. Mas não cabe a eles o poder de mando, o qual se concentra nos políticos. A irresponsabilidade destes poderá ter consequências fatais.

(*) É cientista político e professor da USP, onde se formou em ciências sociais e jornalismo. Foi porta-voz e secretário de Imprensa da Presidência no governo Lula

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Henrique Barbosa