23 jan 2020

Títulos, milagres e polêmicas: lembre momentos marcantes de Tiago Cardoso no Santa Cruz.

Por Rômulo Alcoforado — Recife

Títulos, milagres e polêmicas: lembre momentos marcantes de Tiago Cardoso no Santa Cruz
Arte / GloboEsporte.com

Tiago Cardoso se despede dos gramados

Tiago Cardoso se despede dos gramados

Tiago Cardoso parou. Nesta quarta-feira, o goleiro anunciou que decidiu encerrar a carreira profissional – detido por dores intensas nos dois joelhos. O ídolo do Santa Cruz quase cedeu também à emoção. Na coletiva em que comunicou a aposentadoria, no Arruda, nesta quarta-feira, Cardoso teve de domar os sentimentos para se manter firme e decretar, aos 35 anos, o ponto final da vida de atleta.

– Esse anúncio não é fácil. Nunca me senti bem na frente das câmeras. Era um sonho de criança, época de pelada, virar profissional. Não é fácil anunciar a aposentadoria. Uma hora essa decisão teria que ser tomada, mais cedo ou mais tarde. Fico feliz por tomar essa decisão no Santa Cruz. Mesmo por curto tempo, a ideia era jogar até o final do ano, mas tem tempo para tudo. Chegou a hora de pendurar as luvas. Tenho muito orgulho de ter jogado no Santa, por ter feito parte da história desse clube que me marcou.

O agora ex-goleiro pode continuar no Arruda, assumindo funções na comissão técnica do clube. Segundo o presidente Constantino Júnior, Tiago pode escolher o que quiser fazer no Santa. A oportunidade é uma espécie de reconhecimento para quem tanto fez pelo clube. Para quem ganhou sete títulos e marcou seu nome na história como um dos grandes.

Confira, abaixo, os principais momentos carreira de Tiago Cardoso no Santa Cruz – os melhores e piores episódios de uma relação de mais de seis anos.

Chegada discreta

Contratado em 2011, Tiago Cardoso chegou ao Arruda de forma discreta. Goleiro e clube viviam momentos de incerteza: o Santa respirava por aparelhos. Após sucessivos rebaixamentos, precisava ir bem no Pernambucano para conseguir uma vaga na Série D, no segundo semestre. Cardoso tinha vivido bons momentos no Fortaleza – mas vinha em baixa do Monte Azul, clube pouco expressivo do interior paulista.

Não era possível imaginar que o casamento desse tão certo e de forma tão imediata. Guardião da meta de um time desacreditado, formado por apostas e jogadores da base, Tiago Cardoso foi decisivo na conquista de um título estadual improvável: no pior momento de sua história, o Santa dava uma prova de força ao superar Náutico e Sport na competição. O atacante Gilberto foi o herói daquele título, mas o goleiro teve papel determinante na conquista da taça.

Consolidação com títulos e acessos

Tiago Cardoso tem currículo recheado de taças no Santa Cruz — Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press

Tiago Cardoso tem currículo recheado de taças no Santa Cruz — Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press

O título pernambucano de 2011 foi importante para resgatar a confiança do torcedor e do Santa Cruz em sua própria força, mas, por si só, não garantia um horizonte mais tranquilo para o clube. Eram necessárias mais conquistas e mais acessos. Tiago e o Santa não pararam naquela primeira taça: seguiram, juntos, empilhando feitos.

Ainda em 2011, o clube conseguiu voltar à Série C. Em 2012, levantou o bi-campeonato estadual. Em 2013, com uma das melhores atuações da vida de Tiago Cardoso, foi a vez do tri – que, naquele mesmo ano, ganharia companhia da taça da Série C.

Centenário difícil, lesão e volta por cima

Tiago Cardoso (E) sofreu lesão em 2015 e foi substituído por Fred (D) — Foto: Aldo Carneiro / Pernambuco Press

Tiago Cardoso (E) sofreu lesão em 2015 e foi substituído por Fred (D) — Foto: Aldo Carneiro / Pernambuco Press

Com o Santa Cruz de volta à Série B, o clube retornava a um patamar aceitável no futebol brasileiro em 2014, ano de seu centenário. Deveria ser uma temporada especial, mas acabou sendo frustrante: o time foi eliminado nas semifinais da Copa do Nordeste e do Pernambucano pelo Sport – duelos em que Tiago não conseguiu ser milagroso como em clássicos anteriores.

Na Série B, o Santa tampouco teve sucesso: acabou a competição na nona posição, a sete pontos do Avaí, último clube a subir para a primeira divisão.

Em 2015, a equipe voltou a ganhar o Pernambucano. Cardoso fez parte do grupo campeão, mas não teve influência direta em seu resultado: com lesão em ligamento do joelho, viu dos camarotes o Santa ganhar a competição. Fred foi o goleiro.

Mas a volta por cima estava desenhada para acontecer naquela mesma temporada. Tiago voltou a jogar na Série B e novamente fez o torcedor tricolor sorrir: com uma arrancada na reta final, o time de Cardoso, Grafite, João Paulo e cia. conseguiu subir. Vice-campeão, atrás apenas do Botafogo, o grupo devolvia o Santa à Série A após 10 anos de um intervalo – ao longo do qual o time visitou as profundezas do futebol brasileiro.

Tiago Cardoso completava então um ciclo inteiro: chegou ao Santa quando o clube não tinha nem divisão – e agora estava na elite. O processão de ressurreição fora completado.

Diante do Mogi Mirim, Santa Cruz cravou acesso à Série A em 2015 — Foto: Alex Silva / Estadão Conteúdo

Diante do Mogi Mirim, Santa Cruz cravou acesso à Série A em 2015 — Foto: Alex Silva / Estadão Conteúdo

Dois títulos em uma semana

Santa ganha Nordestão e Pernambucano na mesma semana — Foto: Marlon Costa / Pernambuco Press

Santa ganha Nordestão e Pernambucano na mesma semana — Foto: Marlon Costa / Pernambuco Press

O primeiro semestre de 2016 foi de sonho para o torcedor do Santa. À base do ano anterior foram acrescentados novos bons jogadores: Keno, Uilian Correia e Arthur Caíke. Marcelo Martelotte não resistiu às turbulências das primeiras rodadas e foi substituído por Milton Mendes – sob cujo comando o time tricolor cresceu de produção.

O Santa chegou ao ápice numa semana mágica, em que ganhou Copa do Nordeste e o bi pernambucano – o quinto título estadual em seis temporadas.

O início da Série A, semanas depois, também foi marcante: o Santa goleou Cruzeiro e Vitória em casa e empatou com o Fluminense. Em três rodadas, estava na liderança da principal competição do país, da qual ficou alijado por 10 anos.

Tiago Cardoso foi o capitão do título regional de 2016 — Foto: Adelson Costa / Pernambuco Press

Tiago Cardoso foi o capitão do título regional de 2016 — Foto: Adelson Costa / Pernambuco Press

Desgaste com queda técnica, ação e troca por rival

A partir dali, no entanto, o sonho foi adquirindo aspecto negativo. O encaixe do time se desfez, o nível despencou, os atrasos de salário chegaram a níveis alarmantes e as boas atuações minguaram a ponto de sumir.

Tiago Cardoso não conseguiu manter o nível técnico do início daquela temporada e das anteriores. Cometeu erros, foi alvo de críticas da torcida. Chegou a ir para o banco de reservas.

Ao fim de 2016, decidiu romper a relação com o Santa. Despediu-se do clube de forma radical. Acertou com o Náutico, num movimento que parte da torcida tricolor até hoje não aceita – como também não lhe caiu bem a ação que moveu contra o clube.

A relação entre Tiago Cardoso e Santa Cruz, até então só de bons momentos, ganhava uma mancha que ainda não se desfez por completo.

Volta frustrada, dores e aposentadoria

O retorno do ídolo para a casa era a chance de reconstruir o amor integral entre as partes. Novamente em crise, agora na Série C, o Santa recorria mais uma vez a Tiago Cardoso.

Mas o retorno triunfante jamais chegou a acontecer. Com dores nos joelhos, Tiago Cardoso decidiu que não jogaria mais. Que era chegado o momento de um ponto final à vitoriosa carreira.

De modo torto, porém, cumpriu o desejo de muitos dos seus fãs: encerrou sua carreira com a camisa do Santa Cruz, clube que lhe marcou a carreira e que foi marcado por Tiago Cardoso.

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Reinhard Allan Santos