3 dez 2019

Bolsonaro e Lula são “salafrários”, diz Lobão.

João Luiz Woerdenbag Filho é o que se pode chamar de metamorfose ambulante. Conhecido pelo grande público como Lobão, o músico carioca apoiou o ex-presidente Lula em 1989. Sofreu represália da Globo por gritado e exibido o nome do petista, durante participação no Domingão do Faustão, no dia da eleição contra Fernando Collor. Posou para fotos com a camiseta do Movimento dos Sem-Terra (MST). Converteu-se em crítico contumaz dos governos petistas de Lula e Dilma. Assumiu protagonismo na cena política conservadora, seja em entrevistas, seja na publicação de livros, seja no papel de influenciador nas redes sociais. Em 2018, apoiou explicitamente a eleição de Jair Bolsonaro.

Menos de um ano após a posse de Bolsonaro, quem acompanha o Twitter e o canal de Lobão no YouTube já sabe que a posição do cantor em relação ao presidente já mudou radicalmente. Geralmente escritas em caixa-alta, as publicações do cantor e compositor contra o governo têm assumido cada vez mais tom ácido, como costumam ser suas opiniões. Para ele, Lula e Bolsonaro são dois “salafrários”.

É esse o tom da entrevista que você verá a seguir, concedida por Lobão ao Congresso em Foco no último sábado, horas antes de um show em Brasília.

A mudança de opinião sobre Bolsonaro lhe rendeu a pecha de “traíra” por parte dos apoiadores do presidente. Resultou na inclusão da inusitada de seu nome na “lista de comunistas” que circula na internet, junto com a ex-líder do governo Joice Hasselmann (PSL-SP), a apresentadora de TV Rachel Sheherazade e a revista The Economist, um dos símbolos do liberalismo econômico mundial.

Lobão afirma que não se arrepende de ter votado no militar, já que a permanência do PT na Presidência por mais quatro anos, sem alternância de poder, seria ainda pior, na sua opinião. “Eu lutei 13 anos contra o PT, eu acho que o principal mal seria uma eleição do PT sem alternância de poder desde 2002, 2003, então, você ter o [Fernando] Haddad depois de tudo que passou é absolutamente inviável”, explica.

Apesar disso, o músico é pura crítica ao atual governo. Para ele, o ministro da Economia, Paulo Guedes, a quem já teceu elogios, é um “aventureiro” e faz uma gestão “desastrosa”. O ministro da Justiça, Sergio Moro, virou uma “marionete”. Os militares, que seriam mais esclarecidos, estão submissos ao presidente.

Para ele, não há justificativa para manter o presidente no poder, e ele deve ser removido por vias democráticas o quanto antes. “É um cancro para a nação ter essa família do Bolsonaro, que é um salafrário, é uma pessoa que prega moralidade sendo uma pessoa obscena, que de honestidade não tem nada, e o Brasil precisa se livrar dessas pessoas o quanto antes, dentro das vias democráticas”, afirma.

Mesmo com esse pensamento, Lobão acredita que a mudança de presidente traria novos complicadores para o Brasil, já que o problema maior, na avaliação dele, está na cultura brasileira. “Os representantes são legítimos, são exatamente o que nós somos. Tem que se enxergar e dizer ‘olha, isso somos nós’. Assim como uma pessoa que tá gorda e precisa emagrecer, o brasileiro precisa dizer: ‘olha, eu sou uma merda, preciso deixar de ser uma merda'”, comenta.

A aproximação que os brasileiros tiveram com a política nos últimos anos não os tornou mais esclarecidos sobre o tema, acredita Lobão. “O brasileiro não está mais amadurecido porque fala sobre política, o brasileiro tem agora uma maneira de tratar política como se tratava do futebol e da telenovela, então não é uma mudança de qualidade de caráter, você tá adicionando novos hábitos de novas fofocas”, explica.

Confira a entrevista completa abaixo, na qual o cantor fala ainda sobre a gestão cultural do governo Bolsonaro, a volta de Lula para o xadrez político, a candidatura de um político de centro e da “saudade” do ex-presidente Michel Temer, classificado por ele como, ao menos, um político discreto.

Congresso em Foco – Um dos últimos vídeos que você publicou no seu canal do Youtube tem o título “É injustificável a permanência de Jair Bolsonaro na Presidência”. Como você vê essa situação?

Lobão – Olha, eu já tinha como custo-benefício esse tipo de senão na figura do Bolsonaro, mas todo mundo me pergunta: ‘pô, você não se arrependeu de ter votado no Bolsonaro’. Eu digo: ‘não, não me arrependi’, porque eu tinha um compromisso. Eu lutei 13 anos contra o PT, eu acho que o principal mal seria uma eleição do PT sem alternância de poder desde 2002, 2003, então, você ter o Haddad depois de tudo que passou é absolutamente inviável. Então, eu pensava assim: ‘Pô, o Bolsonaro tem todos os senãos – e eu já via isso quando fui apoiá-lo –, mas ele tem uma vantagem’. Eu acho que eclodiu no Bolsonaro uma figura do mal que estava fora de moda, aquele mal explícito, aquele vilão ‘eu vou bater, vou dar porrada’… Isso, o próprio mal com seus anticorpos de sobrevivência, criou o Lula, por exemplo, que é uma figura, o psicopata que causa empatia, fofura, o mal fofo. Havia o mal fofo, né? E o Bolsonaro é aquele mal do mal. O mal explícito. E eu acho que isso, no meu cálculo de apoio, falei assim: ‘se esse mal explícito preponderar, não será um grande problema porque a sociedade vai expeli-lo com mais força’. E eu acho que toda a estrutura do PT, se estivesse no poder, reeleito, com o nosso querido Haddad, ele iria se cristalizar e fossilizar-se no poder. Então, uma das principais nuances da minha escolha foi o fato de ter um mal explícito e considerar que esse mal explícito seja um elemento que facilite mais expelir esse mal do poder.

Lobão com a camisa do MST. De acordo com ele, “naquele tempo não era vergonhoso fazer visitas ao MST, pois ainda não havia ampla divulgação de todas as suas atrocidades”

reprodução/ Twitter

É mais fácil tirar um mal explícito que um mal fofo?

Muito mais. O mal fofo é muito mais eficaz.

Você acha que todos os adversários de Bolsonaro em 2018 eram mal fofo?

Olha, o mal, eu falava desde a Xuxa, quando eu via a sexualização, ‘pô, a Xuxa é uma fábrica de mini-putas’, mas é impalpável caracterizar a Xuxa como um mal. A Xuxa é fofa, é querida. Eu pensei em escrever um livro, o mal e seus anticorpos. O mal depois de todas as adversidades do próprio mal – com o Hitler, fascismo, nazismo, Stalin, os males não-fofos –, por questão de sobrevivência mesmo, ele adquiriu uma carapaça mais palatável, mais empática com a história. Parecia até que a perca da ingenuidade da sociedade ocidental, basicamente, não mais comportaria um mal não-fofo, porque o mal fofo era uma condição sine qua non do mal, propriamente, continuar existindo.

É uma mutação em que aquelas bandeiras, aquelas manifestações explícitas de maldade por toda a trajetória da história mesmo do século XX, poxa, você não ia conseguir… O Hitler conseguiu ser o homem do ano pela [revista] Time em 1933*, se não me engano,  e não era detectado, ele era ainda o mal fofo na época, mas o mal, com seus anticorpos, ele vai ter que transformar o Hitler depois em Fidel Castro, que ainda era um mal fofo da época.

O que eu acho interessante é que o Bolsonaro, em sua época, ele já não é um mal fofo. Nem o Hitler, à época, tinham pessoas esclarecidas que antes da guerra apoiavam o Hitler, e o Bolsonaro é um anacronismo da maldade. Ele é um mal que o retrocesso é de uma improbabilidade que é questionável você pensar que um governo com todo esse arcabouço, essa agenda, com essa pseudoevangelização, a destruição de várias coisas em detrimento de um mal fofo, de querer demonizar um mal fofo, dizendo ‘ah, mas o foro de São Paulo…’, demonizar a própria esquerda, etc, não consegue de forma alguma – ou talvez isso exatamente seja uma evidência ainda maior do próprio mal – essa coisa da retaliação na cultura, educação, a coisa da retaliação pessoal, do cara ‘não, a Folha de S.Paulo’… Ele é um estadista, ele não pode levar a situação a um nível pessoal. É uma coisa muito bizarra, muito primário. A coisa de questionar líderes evangélicos que outrora apoiaram o PT, assim, de repente, ‘se eles apoiarem a gente pode abrir os jogos no Brasil’. Isso tudo é assim uma coisa avassaladora. A esposa do Eduardo Bolsonaro dizendo que tá em um perrengue, isso tudo é de uma irrealidade, né?

E outra coisa: o travestimento dos valores conservadores. O conservador ele é um cético, então eles criam uma manada de pessoas fanáticas que pedem Bolsonaro 2030… Você [o conservador] tem uma obrigação de ser cético em relação aos políticos, e você tem uma manada subscrevendo cegamente, ‘você pode fazer o que quiser’… É proibido intervir nessa ‘missão divina’ do Bolsonaro, que, inclusive, também, desde a facada, se acha ungido por Deus, então isso tudo, é uma situação…

Eu falei com o Osmar Terra [ministro da Cidadania] que veio falar comigo no final do ano, ele falou “olha, eu não entendo nada de cultura, só de berimbau, porque eu toco capoeira”. Eu falei, ‘olha, até para cortar um loop histórico de reação é necessário não retaliar ninguém’. E, outra coisa, se são artistas consagrados, são artistas que são importantes na nossa cultura, você não pode, de maneira nenhuma, deter um poder que ele lutou para adquirir durante todos esses anos e usar para revanche, para retaliação, para perseguição. Temos a obrigação de transformar o panorama cultural brasileiro nessa pirâmide aristocrática que é a arte brasileira, monocultural, praticamente, você sempre tem sempre uma verve, um seguimento sempre sendo único em cada época, né? Era o pagode, ou foi o rock, o sertanejo… Nós temos um caleidoscópio cultural que a gente deveria ter a obrigação de favorecer uma grande classe media artística. Eu falei pra ele ‘Olha, a gente tem uma pirâmide, que a classe media, de favorecer a maioria de artistas com uma carreira longeva, com casa própria, um carrinho na garagem’, sabe? Favorecer essa classe média, casa de espetáculo de pequeno e médio porte. Vê o problema do Sesc, que virou um parasita. O advento do Sesc foi muito bom por um lado, mas por outro acabou com as casas de pequeno e médio porte, e você tem uma máfia de interesses dentro do Sesc e virou um monopólio… Tem vários problemas a serem abordados, mas eles ignoraram totalmente isso e colocaram a Lei Rouanet para o seguimento mais milionário que tem no Brasil. Favorecer artistas milionários é esquisito, agora favorecer um seguimento bilhardário e muito suspeito, em termos de gosto mesmo, como a rede evangélica, é assustador, então isso tudo é muito assustador.

Continuando nesse assunto de cultura, você é abertamente conservador, e a gente tem visto algumas mudanças no setor, nesse sentido. Por exemplo a indicação do novo presidente da Fundação Palmares, que é abertamente contra o movimento negro. Como você vê essa questão?

O Brasil conservador… o conservadorismo do Brasil não é um conservadorismo da Inglaterra, por exemplo, né, do Edmund Burke, Roger Scruton, do Russell Kirk, não, no Brasil ele é pouco reacionário, retrógrado. As pessoas se confundem o conservadorismo com o movimento retrógrado.

Isso não é conservador?

Definitivamente isso não é conservador. Você ter uma camada da sociedade que fica hipotecando cegamente o apoio ao mito, isso não é conservador. O conservadorismo sempre desconfia, é sempre cético, é sempre bota a barba de molho. A temperança faz parte da cartilha do conservadorismo, a prudência faz parte da cartilha, o ceticismo faz parte da cartilha do conservadorismo. E o que eu pleiteio no conservadorismo é a constatação, por exemplo, de que todos os países que são top de linhas, exceto os Estados Unidos, evidentemente, são monarquistas, é uma monarquia conservadora. Você tem a Holanda, você tem a Dinamarca, você tem a Inglaterra, você tem o Japão, você tem a Suécia, a Espanha… Então o que eu quero dizer com isso é que eu, como artista, acho muito importante a gente ter uma sapata na sociedade que proteja determinados valores para que nós, como artistas, possamos quebrar isso. Eu acho que essa é a dialética conservadora. Porque o conservadorismo não é uma coisa que vá contra medidas renovadoras, o conservador ele admite mudanças, mas você tem que preservar determinadas sapatas. Nós somos uma democracia entre vivos e mortos e os que virão. E eu acho que uma coisa que eu acho justo, né, nós somos uma pátria, um país, que os vivos têm que se lembrar daqueles que vieram antes da gente e a gente tem que asfaltar o caminho para uma sociedade que virá, então eu acho que é basicamente esse o teor do conservadorismo.

Agora, deixar bem claro para você vê, tanto a Inglaterra como a Holanda, são sociedades ultra de vanguarda, você tem artes de vanguarda maior nesses lugares, então é mais ou menos isso. Só que não, as pessoas querem voltar à ditadura militar, ao positivismo, ao AI-5, e em um espaço de tempo muito pequeno… A maioria dos brasileiros viveu o período militar. As pessoas têm que entender que os militares só entregaram o poder porque foi um debacle econômico, a gente tava com alta inflação, a crise do petróleo esmelinguiu os processos econômicos dos militares, né? Eu vivenciei isso. Então, a inflação você criou a divida externa econômica, tudo isso aconteceu no governo militar, e somente por isso que os militares falaram ‘toma, que não dá para segurar’, porque eles tavam desmoralizados. Corrupção vigorava, a carteirada assim ‘você sabe com quem está falando?’, o cerceamento dos direitos do cidadão, então o que é que esses caras querem? E outra coisa, um dos grandes erros foi combater o tal do comunismo da maneira que eles combateram, tanto aqui como em todo o… todo o macartismo. Então, assim, [fala-se] ‘a esquerda não aprende com os seus próprios erros’, a direita também não… Então, qualquer coisa que você não haja na cartilha deles você é um comunista, você é um fabiano, que agora tá na moda… Essa paranoia e essa falta de tato de lidar com as pessoas… Por exemplo, eu pensei, inclusive, de fazer uma nova semana de 1922, e eu falei, inclusive, com o Osmar Terra. A primeira coisa que a gente tem que ter como conservador é perceber que nos últimos 100 anos a esquerda tomou o poder desde a semana de 1922.

Em questão cultural?

Em questão cultural, é um totalitarismo cultural. Mas qual é a maneira de combater isso? Aceitando. A gente vai fazer uma semana de 22, ‘ah, você não vai chamar o Caetano Veloso, você não vai chamar a Andrea Varejão, você não vai chamar o Arnaldo Antunes’, não! Você tem que chamar todos eles, eles fazem parte da cultura, eles preponderaram e moldaram o DNA brasileiro nos últimos 100 anos. Então para um conservador a gente tem que conservar isso, essa é uma coisa que esses caras não entendem.

Lobão e Cazuza na capa do ep Seda./Reprodução

Você acha que essas pessoas do governo que se dizem conservadoras fazem mal para o movimento conservador?

Eles não são conservadores, eles são reacionários, eles são uns merdas, eles são pessoas absolutamente inaptas e, intelectualmente, muito abaixo do nível… Porque o Lula também tem um nível de escolaridade muito baixo, mas o Lula é inteligente, é visivelmente um cara mais articulado que o Bolsonaro. O Bolsonaro é uma pessoa muito mais tosca, e toda a cartilha imposta pelo próprio Olavo de Carvalho é tosca, é terraplanista. Nós temos um governo terraplanista, caramba! Nós temos um governo que é a idade das trevas, é uma coisa inadmissível. Um cara que tá a toda hora tendo saudade da ditadura, do Ustra, que já foi condenado como torturador, do Pinochet, que fala sobre o AI-5… Toda a cúpula do governo fica o tempo todo ameaçando isso tudo… Isso é uma vergonha para o país.

O senhor acha que eles estão tentando ver a recepção da sociedade com essas movimentações?

Sim, é claro. Eles tão fazendo uma retórica da porrada. Eles tão empurrando com a barriga para ver até que ponto existe uma resistência da sociedade em relação as propostas da cartilha deles, e como tem muito apoio eles jogam para esse nicho. E é um governo revolucionário/ reacionário. Eles querem cortar todas as soluções, querem cortar tudo que aconteceu na cultura no Brasil nos últimos 100 anos, isso é revolucionário e reacionário, mas é uma coisa que não respeita a tradição que já foi imposta. E esse é que é o grande problema, porque eles estão numa medida de querer transformar a sociedade de maneira radical, cortando coisas, retaliando e ameaçando a sociedade com reprimendas, que só um governo autocrático pode fazer.

Nesse contexto de mal fofo e mal mal, existe alguma possibilidade de bem?

Eu acho que, no caso, nós não temos que ter a dicotomia entre o bem e o mal, tem o mal fofo e o mal mal. O que a gente precisa é de um governo pragmático e discreto que respeite os parâmetros do DNA do próprio povo brasileiro.

Tem alguém que você vê agora como um possível representante disso?

Não, eu não vejo ninguém. Eu acho que o próprio regime militar ele meio que castrou a eclosão de estadistas, porque os que tinham eles cassaram, e o que aconteceu foi que o que ficou em voga foi uma fisiologia, uma linguagem fisiológica, no parlamento, e isso glorificou o picareta, o oportunista, o político fisiológico. Desde então, nós não temos uma substituição de pessoas como o próprio Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, um Carlos Lacerda, sabe? Pessoas desse calado. Você não teve essa substituição, você não tem um estadista hoje em dia.

Algumas hipóteses que se aventam neste momento de um candidato mais de centro seria o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o apresentador Luciano Huck…

Isso é muito pífio, né? O próprio [João] Doria que eu já apoiei é uma figura que, normalmente, você jamais pensaria.

Nenhum dos três?

Somente em uma situação do menos pior. A gente passa o tempo todo votando no menos pior. Eu acho que desde que eu me flagrei como um eleitor, desde que eu comecei a apoiar o Lula, não era porque ele era um cara legal, mas porque não era o Collor. Então era sempre com a cabeça de vamos subtrair o pior em detrimento do menos pior. No Brasil não tem opções. Desde 30 anos já que nós temos a votar isso e não temos opção. A própria condição macunaímica** do Brasil, que o brasileiro ele se jacta dos próprios defeitos, por isso que o Brasil não cresce. O Brasil não tem aquela ressaca moral da tentativa e erro. Você tenta, erra e depois você se glorifica pelo erro: ‘Ah, mas só o Brasil tem esse jeitinho’.

Você não acha que isso está mudando?

De jeito nenhum. Isso tá cada vez mais evidente que o Brasil é assim, e por isso que eu fiz um livro O manifesto do nada na terra do nunca. O Brasil é um país que se recusa a crescer terminantemente, é um looping. Infelizmente, não vejo esse DNA fundamental do caráter brasileiro, não. O brasileiro ele adora o seu jeitinho e transmigra: você tinha um brasileiro que tinha como meta a paixão pelo futebol e a paixão pela telenovela, ai nós migramos essa paixão, nas redes sociais, para a política, encarando a política como se fosse um time de futebol e evocando a fofoca da telenovela. O brasileiro não está mais amadurecido porque fala sobre política, o brasileiro ele tem agora uma maneira de tratar política como se tratava do futebol e da telenovela, então não é uma mudança de qualidade de caráter, você tá adicionando novos hábitos de novas fofocas, de novo target para fofocas, mas não que você tenha uma visão mais arejada e civilizada do mundo, isso de maneira nenhuma. Nesse sentido, a gente tem visto uma série de histórias dentro do governo que parecem novela, como o caso do deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PSL-SP), que não foi escolhido como vice-presidente na chapa do presidente Bolsonaro porque acreditavam que ele teria feito uma orgia homossexual…

A coisa que mais me causa agonia é ver que o Brasil não aprende com seus erros em momento nenhum. Desde a escravatura… Por que que o Brasil foi o último país a ser escravocrata? Nós temos tudo isso porque o Brasil não aprende, porque o Brasil não é somente complacente com seus erros, ele é vaidoso com seus erros. A propina, o jeitinho, de colar. Se você for um aluno aplicado você vai ser chamado de CDF, você vai levar cascudo. O Darwin se viesse aqui, aqui é a lei do mais inapto, aqui quanto mais inapto, quanto menos mérito, você ganha. Quanto mais você for medíocre em qualquer função, quanto mais você for conivente pelo status quo desonesto você vai ganhar. Isso não muda de maneira nenhuma, isso somente está, cada vez mais, nem crescendo, na verdade, ele simplesmente se transforma e se adapta a continuar a ser o status quo do cerne do caráter do brasileiro.

Vida Bandida é o álbum mais vendido do cantor e possui grandes sucessos como “Blá Blá Blá… Eu Te Amo”, “Vida Bandida” e a mais conhecida do disco, “Vida Louca Vida”.

reprodução/ YouTube

Você vê alguma coisa positiva no atual governo?

Nenhuma, não há nada positivo. A única coisa positiva que eu vejo nesse governo é o fato de ser um mal mal, um mal que não seja fofo. Um mal que cause asco imediato a um segmento mais esclarecido da sociedade que pode ser justamente o gatilho para que não haja uma tolerância para esse mal explícito.

Você acha que o presidente Bolsonaro termina o governo?

Eu espero que ele não termine o próximo ano. A única condição de imaginar que seja possível ou viável o governo terminar esse primeiro ano é porque, pela Constituição, se houvesse o impeachment do presidente teríamos que ter outra eleição no primeiro ano, eu acho que seria um prejuízo terrível para a nação. Até primeiro de janeiro eu acho que essa desculpa vale, no dia 2 de janeiro esse cara tem que ser impedido imediatamente, tem que ser interditado. É um cancro para a nação ter essa família do Bolsonaro, que é um salafrário, é uma pessoa que prega moralidade sendo uma pessoa obscena, que de honestidade não tem nada, e o Brasil precisa se livrar dessas pessoas o quanto antes, dentro das vias democráticas.***

O impeachment foi um processo complicado e deixou a sociedade muito reativa…

Mas a sociedade é reativa. A sociedade brasileira é a sociedade mais retrógrada das que nós temos no mundo. Você pode imaginar um país com a dimensão geográfica que o Brasil tem e com a insignificância cultural e político que nós temos no mundo? Qual o país do tamanho do Brasil que tem a insignificância dele? Nós temos uma significância de país que é uma ilha, sabe? Nós não temos nada no Brasil, um prêmio Nobel, nada. O Brasil é uma merda e a única maneira da gente sair dessa merda é se olhar no espelho e falar assim: ‘eu sou uma merda’, mas para isso eu preciso me achar uma merda e não me tolerar enquanto merda.

Nesse sentido, você entende que o Bolsonaro seria uma mostra desse fenômeno?

Não, o Lula também é, o Fernando Henrique também. Não houve nada no Brasil nos últimos 500 anos que indicasse que o Brasil fosse menos merda do que ele é atualmente.

Mesmo ele sendo o mal mal e não o mal fofo?

Não, o mal mal ele só tem um bem em ser mal: ele é muito explícito, e aí eu acredito que com tanta indulgência e complacência, passada de pano, que a sociedade brasileira sempre se acostumou, possa ser um gatilho para que alguma pequena fração da sociedade possa liderar um movimento para que isso chame nos brios que estão adormecidos há 500 anos.

Isso não pode ficar assim, a gente tem que crescer, e, para crescer, a gente tem que enfrentar as adversidades, a gente precisa parar com falso moralismo. Todos eles vieram com uma retórica contra corrupção, o Lula também, todos eles têm essa mesma retórica, todos eles roubam, todos eles são desonestos, estelionatários, mas não é que são eles, o brasileiro é assim, o brasileiro 95% é assim, então a gente tem que deixar de ser assim. A gente não pode ficar culpando os nossos representantes. Os representantes são legítimos, são exatamente o que nós somos. Tem que se enxergar e dizer ‘Olha, isso somos nós’. Assim como uma pessoa que tá gorda e precisa emagrecer, o brasileiro precisa dizer: ‘olha, eu sou uma merda, preciso deixar de ser uma merda’, mas pra isso a gente tem que deixar esse arcabouço cultural macunaímico que nós temos, que a gente – seja de direita, seja de esquerda, seja de qualquer coisa – tenha esse envaidecimento de ser essa coisa brasileira que nós somos, e que é péssimo. Em lugar nenhum no mundo alguém queria ser assim, mas o brasileiro não só admite ser assim, como se envaidece por ser assim. Enquanto a gente continuar se envaidecendo por ser esse tipo de brasileiro que a gente tem em mente, a gente não vai chegar a lugar nenhum.

Como você vê a saída do Lula da prisão, nesse momento político?

Ele foi condenado umas duas semanas depois de sair da prisão a 17 anos, ele é um canalha, um salafrário. Ele ainda vai ser condenado por outros crimes, isso tudo é café pequeno perto do que ele fez. E o que é mais assustador é ter uma sociedade dividida entre dois facínoras, entre dois salafrários, entre dois Macunaímas, entre dois heróis sem o menor caráter. Por quê? Porque eles representam uma abstração do povo brasileiro, isso daí é a concretização da representatividade do povo brasileiro. E essa coisa desonesta de só o outro que é errado, o outro é desonesto, o outro é que rouba, e o outro lado sempre é indulgido, e isso é tudo muito infantil, isso tudo é muito primário, isso tudo me causa muito constrangimento de ser brasileiro.

Você acha que uma mudança na forma de governo brasileiro seria uma solução?

Não, as pessoas têm que entender que nada vai salvar o brasileiro, se, na estrutura psicológica, na estrutura cultural e emocional do brasileiro, não houver uma mudança. Não adianta você mudar os regimes do Brasil, que o brasileiro é um mau-caráter, basicamente, é um Macunaíma, um herói sem nenhum caráter. Então, enquanto isso vigorar, o Brasil não tem como sair desse patamar pantanoso, paralisante da própria índole. O Brasil, antes de qualquer coisa, estruturalmente, dentro do seu cerne mais primordial, tem que ser mudado. Não adianta o Brasil tomar medidas externas e paliativas ou panaceias mirabolantes.

Você elogiou bastante o ministro Paulo Guedes durante a eleição. Como vê a gestão dele?

Desastrosa. O que eu achei bacana é que ele peitou uma série de falácias que o próprio PT estava impondo em relação a ele. Agora, as medidas dele mostram que ele é um aventureiro, e outra coisa: o próprio Moro se mostrou um títere. Todo o respaldo, as motivações que a gente achava que ia ter um Brasil mais moderno com o Bolsonaro, eles faliram nesses últimos seis meses. Até os militares, mais esclarecidos, todos estão lambendo o saco do Bolsonaro, então a gente tem que pensar que isso é um tumor, uma pustule. Tem que tirar esse governo daí… agora, é aquela coisa, tem que tirar, mas não adianta, porque qualquer outro governo que vá… é óbvio que um governo como o do Temer. A gente tem que ter saudade do Temer, porque pelo menos é um cara discreto, ninguém sabia o que estava fazendo. A gente precisa de um governante assim que a gente não saiba o que o cara está fazendo, adquirir um patamar de funcionário público em que esteja resolvendo problemas palpáveis e não culto à personalidade, essas coisas todas. Mas eu acho que, enquanto o brasileiro for esse brasileiro que eu tô dizendo, você vai mudar de governo e vai ter as mesmas mazelas, se apresentando de formas diferentes. Agora eu acho que, de uma forma ou de outra, você ter o Bolsonaro dentro do governo é obsceno, é pornográfico, é uma coisa que tá acima do tolerável pra qualquer expectativa, mesmo um povo dissoluto como somos nós, um povo sem o menor caráter, um povo subdesenvolvido, ter o Bolsonaro como representante é demais.

*Adolf Hitler foi capa da revista Time em 1939

** Macunaíma é um livro modernista do escritor Mário de Andrade que conta a história de um anti-herói chamado Macunaíma.

*** A Constituição define que haverá novas eleições diretas caso o presidente e o vice-presidente sejam afastados dos seus cargos nos dois primeiros anos de mandato. Se o afastamento de ambos for nos dois anos finais, está prevista uma eleição indireta. Caso somente o presidente seja afastado, independente do ano de mandato, quem assume é o vice.

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Henrique Barbosa