10 nov 2019

Lula saiu de Curitiba maior do que entrou.

Há uma pergunta no ar: o que ele fará? Isso só ele sabe

A ideia de uma vida política sem Lula e sem o PT foi eterna enquanto durou. Desde o dia do seu encarceramento e da derrota do candidato petista à Presidência, seus adversários tiveram uma oportunidade para demonstrar seu anacronismo. Jogaram o tempo fora.

Jair Bolsonaro, o cavaleiro do antipetismo governa o Brasil há quase um ano testando uma agenda desnecessariamente radical. Sergio Moro, o Justiceiro de Curitiba, tornou-se um ministro subserviente e inócuo. Os procuradores da Lava Jato enredaram-se nas próprias armações, reveladas pelo The Intercept Brasil.

Disso resultou que Lula saiu de Curitiba maior do que entrou. Desde que ele foi para a cadeia, muitas foram as radicalizações surgidas na política nacional. Nenhuma partiu dele.

A ideia era jogar uma bomba na casa de força, para cortar a energia. O coronel vetou o projeto. Um ano depois, quando Romeu estava na Escola de Comando e Estado Maior, a ideia foi retomada. A bomba jogada contra a casa de força pifou e outra explodiu no colo de um sargento do DOI, ferindo o capitão que o acompanhava.

Passaram-se quase 40 anos e Lula continua sendo visto como um radical. Às vezes ele o é, mas até hoje seu papel foi mais de bombeiro do que de incendiário.

Hoje, como em 1980, Lula pode ser temido por radical, mas ele não é o único da cena.

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O governo acredita nas suas lorotas

Mesmo com anticlímax dos leilões, Bolsonaro e Guedes proclamaram vitória

Segundo o Bolsonômetro, o presidente Jair Bolsonaro faz uma declaração imprecisa ou falsa a cada quatro dias. Perde de longe para seu colega Donald Trump (22 por dia), mas bate todos seus antecessores brasileiros. Até aí, seria apenas um mau jogo, mal jogado, mas a prática disseminou-se e cristalizou-se.

Bolsonaro acredita que tem uma relação especial com os Estados Unidos. Entregou o que prometeu, mas não recebeu em troca nem aquilo com que contava. Em algum momento, acreditou que poderia liderar uma onda conservadora na América do Sul. Produziu um inédito isolamento.

Na semana passada o governo sabia que os dois leilões de campo do pré-sal haviam subido no muro, mas continuou esperando um sucesso. Veio o anticlímax da quarta-feira e, mesmo assim, proclamaram vitória. Bolsonaro disse que “no meu entender, foi um sucesso”. Sabiam que haveria outro leilão no dia seguinte e arremataram uma nova decepção. Felizmente, o ministro Paulo Guedes resumiu o episódio sem adjetivos: “Tivemos dificuldade para, no final, vender de nós para nós mesmos”.

Apocalipse

De quem já viu de tudo, de todos os lados dos balcão, depois de conhecer as propostas do doutor Paulo Guedes:

— Um tumulto.

Sem querer, o sábio caiu no poema “Nosso Tempo” de Carlos Drummond de Andrade.

— Esse é tempo de partido,

Tempo de homens partidos

(…)

Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra.

“Nosso Tempo” foi escrito durante a agonia do Estado Novo, ao final da Segunda Guerra.

Como o juiz Sergio Moro havia soltado o grampo sabendo que a conversa aconteceu depois que ele mesmo determinou o fim da interceptação, temia-se que o ato fosse contestado. Para defendê-lo, ameaçavam com um pedido de renúncia coletiva.

Às 22h12, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima defendeu a ideia e escreveu:

“Devemos ir para frente da TV e dizer o que acontece. Vamos dizer da guerra subterrânea que enfrentamos.”

Boa ideia.

O feitiço de Trump

Donald Trump é um craque da desinformação. Em abril, com jeito de quem não queria nada, ele disse que o procurador-geral da Ucrânia precisava ir fundo nas investigações sobre corrupção em seu país. Em junho, numa entrevista à rede ABC, revelou que aceitaria informações de outros países contra seus rivais. Não disse quais países.

Teatro, do bom. Rudolf Giuliani, seu advogado pessoal, conversava com os ucranianos desde janeiro, pedindo-lhes que investigassem as atividades do ex-vice-presidente Joe Biden e de seu filho. Em maio assessores de Giuliani estiveram na Ucrânia e em junho a embaixadora americana em Kiev foi demitida, porque estava atrapalhando.

Para mostrar que falava sério, Trump congelou o projeto de ajuda militar à Ucrânia e em julho deu o fatídico telefonema apertando seu colega Volodimir Zelensky.

Em setembro conheceu-se o teor da conversa e deu no que deu.

Para quem acompanha esse filme, na quarta-feira o embaixador William Taylor, que substituiu a colega demitida fará seu depoimento público na Câmara.

Taylor tem biografia. Serviu no Exército, combateu no Vietnã e ocupou a embaixada em Kiev durante o governo de George Bush. Ele já denunciou o toma-lá-dá-cá.

Para alegria da banca e tristeza de Trump, Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York, sinalizou que disputará a indicação pelo partido Democrata.

Ele tem uma fortuna de 53 bilhões de dólares e não herdou um só centavo do pai. Trump é filho de milionário.

Bloomberg construiu um império e nunca faliu. Seis empresas de Trump faliram.

Depois de governar Nova York durante 12 anos de 2002 a 2013, saiu limpo e aplaudido.

Durante a convenção democrata de 2016, quando se sabia que Trump seria o candidato republicano, ele avisou:

“Como novaiorquino, quando eu vejo um vigarista, reconheço-o”.

Elio Gaspari

Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles “A Ditadura Encurralada”.

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Henrique Barbosa