21 maio 2019

Frustração com atividade econômica pode voltar a travar crédito bancário.

A frustração com o crescimento econômico aquém do esperado pode voltar a travar as carteiras de crédito dos grandes bancos. Juntos, os quatro maiores bancos (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander) correspondem por 63,8% dos empréstimos.

Apesar do crescimento de 7,4% demonstrado na carteira expandida dessas instituições financeiras no primeiro trimestre deste ano contra igual intervalo de 2018 (de R$ 1,0941 trilhão para R$ 2,086 trilhões), a demora na retomada do emprego e do investimento serão impedimentos para avanços mais fortes ao longo de 2019.

De acordo com o professor da Saint Paul Escola de Negócios Maurício Godoi, o ambiente econômico e político trazendo resultados aquém do esperado podem se traduzir em um aumento nas despesas de provisões para devedores duvidosos (PDD) – créditos baixados a prejuízo – no segundo trimestre.

“É importante lembrar que a concessão de crédito, hoje, é bem menos arriscada para o banco do que era há um ano. Mas a partir do momento em que as expectativas de crescimento do País diminuem temos um sério problema. A renda continua baixa, o desemprego continua alto e o risco, que estava melhor, tende a piorar. O bom cenário do crédito que vimos nos primeiros meses ainda é muito pontual para traçar uma tendência”, diz o especialista.

Para o economista do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC) Vitor Meira França, mesmo com inadimplência nos patamares mais baixos da história, todo o aumento do crédito tem um limite ante o atual ambiente. “Se a renda não voltar a acrescer em um cenário que os bancos tomaram mais risco, inevitavelmente esse espaço para expansão diminui. E se a economia continuar patinando e a inadimplência voltar para cima, a certeza é de que os bancos freiem a concessão de crédito novamente”, argumentou.

Segundo o balanço dessas instituições, mesmo que três deles tenham apresentado redução da inadimplência, os índices de cobertura continuam altos. O Banco do Brasil (BB), registrou queda de 1,04 ponto percentual (p.p.) nos níveis de calote do primeiro trimestre deste ano contra os mesmos três meses de 2018, de 3,63% para 2,59%, enquanto o Bradesco mostrou redução de 1,13 p.p. (de 4,4% para 3,27%). O Itaú teve estabilidade (3,7%) e o Santander mostrou uma leve alta de 0,2 p.p. (de 2,9% para 3,1%) na mesma relação.

Já quanto aos índices de cobertura, o Banco do Brasil mostrou aumento de 20,1 p.p. (de 193,9% para 214%) e o Bradesco, de 36,5 p.p. (de 219,3% para 255,8%). Itaú caiu 28 p.p. (de 236% para 208%) e o Santander registrou retração de 21 p.p. (de 216% para 195%).

“Não há dúvidas que o mercado de crédito cresce, mas tudo isso fica muito condicionado ao crescimento da economia. Não se cria dinheiro do nada. Mas há expectativa de que o mercado continue mostrando fôlego se esse ambiente de incertezas melhorar”, completa França.

Pequenos negócios

As carteiras que mais tem demonstrado crescimento, por sua vez, em todos os quatro maiores bancos do País, são as voltadas para pessoas físicas e para micro, pequenas e médias empresas (MPMEs). No primeiro trimestre deste ano, essas instituições somaram, por exemplo, R$ 268,6 bilhões no crédito. Às MPMEs, um avanço de 8% ante igual período de 2018 (R$ 248,6 bilhões).

No cenário para pessoas físicas, por sua vez, o aumento foi de 12,5%, de R$ 668,5 bilhões para R$ 752,2 bilhões. Ao mesmo tempo, a carteira das grandes companhias mostrou uma alta de 1% na mesma comparação, de R$ 624,6 bilhões para R$ 631,1 bilhões.

“No final do ano passado os bancos estavam mais otimistas de que a carteira de pessoas jurídica iria performar melhor em 2019. O que temos visto, no entanto, é que somado aos outros instrumentos de captação que as grandes corporações apresentam, o foco dessas instituições também mudou para as MPMEs”, comenta o analisa da Planner, Victor Martins.

Ele reforça, ainda, que a frustração ante o cenário econômico também já é refletido nas concessões bancárias. “Já temos uma leitura de que esse crédito está mais travado. Mas a maioria das perspectivas estão voltadas para o segundo semestre”, completa o analista da Planner Corretora.

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Henrique Barbosa