17 maio 2019

Projeções para baixo do PIB alertam para novo período de recessão.

IBGE divulgará balanço do primeiro trimestre no dia 30

Setor da construção civil é grande mobilizador de mão de obra e de serviços, mas enfrenta ociosidade / Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Setor da construção civil é grande mobilizador de mão de obra e de serviços, mas enfrenta ociosidade

Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Adriana Guarda e Leonardo Spinelli

Os números do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre serão divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no próximo dia 30 e o que se espera é notícia ruim. Na quarta-feira (15), o Banco Central anunciou seu índice IBC-Br, que funciona como uma prévia do PIB, mostrando, entre outros dados, uma queda de 2,2% na produção industrial, segmento da economia que tem o potencial de contaminar os demais. Com as novas revisões para baixo nas projeções de crescimento, sobe o “cheiro de recessão no ar”, como afirmou a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, em artigo para o Broadcast do Estadão.

Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura Investimentos explica que recessão é caracterizada por dois PIBs trimestrais negativos consecutivos. “O último PIB de 2018 foi quase negativo (0,1%) e há uma certa confiança de que o primeiro de 2019 seja negativo. Então precisaria de um segundo, e os indicadores econômicos mostram que isso é possível de acontecer”, afirmou.

O economista da Consultoria Tendências, Thiago Xavier, lembra que há uma ociosidade tanto no capital produtivo, na utilização de máquinas e equipamentos como no mercado de trabalho, com desemprego alto, subocupação e desalento. “Vemos uma ociosidade muito elevada em todos os setores produtivos, especialmente naqueles ligados à indústria da construção civil, que tem segurado a retomada da economia por gerar efeitos em cadeia. Muito mais importante do que produzir cimento, gesso, vergalhão é mobilizar outros setores, como o de transporte e o imobiliário. Tudo isso gera emprego.”

O atual cenário é completamente oposto de apenas 137 dias atrás, quando o presidente Jair Bolsonaro tomou posse sob expectativas de que seu governo poderia gerar crescimento em torno de 2,5%. Nessa quinta-feira o mercado reviu posições e os analistas projetam crescimento abaixo de 1% para este ano. “Com a política atrapalhando aqui dentro e o cenário externo conturbado, a previsão é que este ano seja muito ruim. A gente poderá repetir um ciclo de três anos seguidos de crescimento fraco. Enquanto isso, a reforma é a grande incógnita. Não sabemos quando será aprovada. Tudo isso influencia negativamente os empresários e os consumidores, que adiam seus investimentos. As pessoas passaram a não acreditar mais na recuperação da economia e quanto mais as pessoas acreditam que não vai dar certo, acontece aquilo que se estava prevendo”, contextualiza o sócio da Multinvest Capital, Osvaldo Moraes.

O próprio contingenciamento de despesas do governo, que tem um rombo de R$ 169 bilhões em suas contas, atrapalha o crescimento da economia. É menos dinheiro circulando. “Isso produz uma redução na demanda no curto prazo. Quando ele corta investimento, puxa a demanda para baixo”, diz o economista-chefe da Futura Investimentos, Pedro Paulo Silveira. Além disso, há a briga comercial entre os Estados Unidos e a China, que também reduz as expectativas para o crescimento da economia mundial. Esses fatores negativos são ampliados pelo ambiente de indefinições políticas criadas pelo próprio governo em sua relação com o parlamento, e nessa última semana, com as ruas.

Um dia após os protestos dos estudantes e com a quebra de sigilos bancário e fiscal de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, líderes dos principais partidos no Congresso diziam que o governo de Bolsonaro enfrenta seu pior momento e prevêem uma nova onda de derrotas para o Planalto na próxima semana. “Esse ambiente de indefinições sobre a reforma da Previdência e da própria agenda econômica tem segurado a economia neste trimestre e também vai segurar o resultado no segundo”, diz Xavier da Tendências.

Na prática, uma não aprovação da reforma, a demora em aprová-la ou uma versão muito menor daquela planejada pelo governo (com economia de R$ 1 trilhão em 10 anos) aumenta a expectativa de risco do Brasil. Isso leva a uma saída de dólares (a moeda americana fechou em R$ 4,03), com impacto na inflação e posterior aumento de juros para mitigar esse último efeito, o que prejudica ainda mais o desenvolvimento da atividade econômica. Por outro lado, num cenário em que a reforma passa, há uma valorização do câmbio, sem gerar pressão inflacionária, dando espaço para o Banco Central baixar os juros, estimulando a economia. A Tendências ainda trabalha com duas reduções da taxa básica, chegando a 6% até o final do ano. Hoje está em 6,5%.

Compartilhe esta notícia:
Reinhard Allan Santos