20 abr 2019

Eles querem mandar no Brasil.

Os caminhoneiros estão colocando o governo contra a parede novamente. Ameaçam nova greve para o dia 10 de maio e Bolsonaro corre para atender todas suas exigências, deixando o governo de joelhos outra vez

Crédito: AFP/ Miguel Schincariol

Wilson Lima

Logo depois de ouvir o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, anunciar uma série de benesses para a categoria – segurando o aumento do preço do óleo diesel, abrindo linha de financiamento para manutenção de caminhões e prometendo estudos para o tabelamento do frete –, o líder dos caminhoneiros Wanderlei Alves, o Dedéco, reagiu com desdém: “Esmola”. Dedéco mostrava, com isso, a disposição dos 2 milhões de transportadores de colocarem o governo mais uma vez de cócoras. Apesar dos acenos feitos no atendimento de todos seus pedidos, os caminhoneiros continuam prometendo nova greve da categoria para o dia 10 de maio, em outra tentativa de inviabilizar a economia para chantagear o governo novamente. Pela terceira vez, os motoristas de caminhão ensaiam um movimento que, nas duas vezes anteriores, ajudou a desestabilizar os governos de Dilma Rousseff e Michel Temer. Preocupado com os efeitos de uma nociva nova paralisação de caminhoneiros, o presidente Jair Bolsonaro aceitou atender todos os pleitos da categoria, mesmo que parte dela tenha dado de ombros às medidas anunciadas por Onyx. Eles continuam com a faca no pescoço do presidente, pois sentem que podem obter ainda mais benefícios, em detrimento das combalidas contas públicas.

Apesar de o governo Bolsonaro ter atendido a todas as exigências, Wanderlei Alves, o Dedéco, líder dos caminhoneiros reagiu com desdém: “Esmola”

No primeiro momento da pressão da categoria, Bolsonaro determinou ao presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, que não aumentasse o preço do litro do diesel em 5,74%, rasgando a cartilha liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes. Depois da intervenção de Bolsonaro, na quarta-feira 17, Castello Branco anunciou um reajuste menor, de 4,84%, representando uma alta de R$ 0,10 por litro. Na cabeça dos motoristas liderados por Dedéco, ficou a seguinte impressão: se o presidente cedeu uma vez, pode ceder de novo se a pressão aumentar. Sabedor do potencial explosivo de uma nova greve, Bolsonaro ficou apreensivo quando os ministros Onyx Lorenzoni e Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência, lhe relataram que estavam recebendo whatsapps dos líderes dos caminhoneiros ameaçando a greve para o próximo dia 10. Bolsonaro não só determinou a suspensão do reajuste que elevaria o preço do litro, em média, de R$ 2,1432 para R$ 2,2662, como também convocou seus principais ministros para discutirem a apresentação de um conjunto de medidas que apaziguasse o ânimo dos caminhoneiros.

À Onyx e Heleno, somou-se o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, que foram responsáveis pela elaboração do pacote. Mesmo sem saberem ao certo de onde tirarão o dinheiro, os ministros anunciaram na terça-feira 16 as benesses à categoria que julga mandar no Brasil. O governo prometeu a liberação de uma linha de crédito especial de R$ 30 mil do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para que os caminhoneiros façam a manutenção preventiva nos veículos, estudos para se cumprir a tabela do frete da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a liberação de R$ 2 bilhões para a manutenção das rodovias em todo país.

Comando duplo

Como naqueles filmes policiais em que há o “tira bom” e o “tira mau”, os líderes dos caminhoneiros dividem-se na tática de pressão ao governo. Enquanto Dedéco e outros seguem radicais pregando a greve, outro grupo, liderado por Wallace Landim, o Chorão, negocia com o governo a concessão de benefícios. Todos, porém, parecem inspirar-se no exemplo de greve semelhante a que ocorreu em 1973 no Chile e no peso que ela teve para a deposição na época de Salvador Allende. Eles sabem especialmente que agora a paralisação que pregam seria uma saia justa para Bolsonaro. A maior parte dos líderes da categoria apoiou a candidatura do atual presidente. Bolsonaro, antes de chegar ao Palácio do Planalto no ano passado, foi um entusiasta da greve dos caminhoneiros.

Todos de maneira irresponsável parecem se inspirar no exemplo de greve semelhante a que ocorreu em 1973, no Chile. O governo não deveria aceitar a “faca no pescoço”.

Em maio do ano passado, quando ensaiava os primeiros passos da sua candidatura à Presidência, Bolsonaro não teve dúvidas em aderir às reivindicações dos motoristas. Em um vídeo no Youtube, mandava uma mensagem de solidariedade aos seus “irmãos das estradas”. Nele, acusava Temer de se omitir e pedia o congelamento do preço do diesel. Naquela greve, os caminhoneiros fizeram o governo refém da paralisação e provocaram até uma queda expressiva do PIB de 2018. Desta vez, às voltas com dificuldades para aprovar a reforma da Previdência, tudo o que Bolsonaro não deseja é que os caminhoneiros inviabilizem a economia como já fizeram no passado. Mas, em paralelo, o governo não deveria aceitar também que esses profissionais deixem um país inteiro refém de suas exigências, cada vez mais nefastas para a economia brasileira.

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Reinhard Allan Santos