16 abr 2019

OS ‘SETE ERROS’ QUE ENVOLVEM A RELAÇÃO DE BOLSONARO COM O PSL.

Presidente pode sair de partido ao qual se filiou em janeiro de 2018; confusão no Whatsapp, suspeitas de laranjas e demissão de ministro agravaram relação

João Paulo Saconi

Bolsonaro em evento do PSL, partido ao qual se filiou em janeiro de 2018 após passagens por outras oito legendas Foto: Divulgação / PSL

Bolsonaro em evento do PSL, partido ao qual se filiou em janeiro de 2018 após passagens por outras oito legendas Foto: Divulgação / PSL

Não são poucas as tensões que podem fazer o presidente Jair Bolsonaro cogitar deixar o PSL futuramente, conforme ele mesmo confidenciou a líderes partidários na última semana. Desde a filiação do então deputado federal, anunciada em janeiro de 2018, político e legenda apareceram juntos em episódios polêmicos que, na maioria das vezes, acabaram sem um desfecho prático: ou foram colocados em panos quentes, ou ainda guardam novos desdobramentos. Eles envolveram, além de Bolsonaro, os filhos dele e o presidente nacional do partido, Luciano Bivar, e o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno.

ÉPOCA recuperou os desencontros entre a sigla e o capitão. Relembre.

Bate-boca virtual

Joice Halsemann, deputada federal pelo PSL, discutiu com Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, e as mensagens vazaram

Eduardo Bolsonaro e Joice Halsemann: bate-boca virtual em grupo do PSL no Whatsapp Foto: Divulgação

Eduardo Bolsonaro e Joice Halsemann: bate-boca virtual em grupo do PSL no Whatsapp Foto: Divulgação

Em dezembro do ano passado, um bate-boca num grupo de WhatsApp batizado de “Bancada PSL 2019” expôs intrigas, disputas de poder e a desconexão nas relações de atuais congressistas do partido do então presidente eleito , com futuros parlamentares da sigla. No epicentro da confusão, estava a deputada eleita Joice Hasselmann (PSL-SP), que ganhou a antipatia de alguns correligionários por tentar impor-se como liderança do partido nas articulações com o governo.

Na discussão, Joice acusou o partido de ter articulação política “abaixo da linha da miséria” e se colocou na posição de quem estaria fazendo o trabalho para melhorar o diálogo com os políticos no Parlamento. A fala provocou reação de outros integrantes, como o deputado federal e senador eleito, Major Olímpio (SP). As conversas começavam em tom mais ameno, com Joice sendo questionada por declarações à imprensa em que afirma poder ocupar o posto de líder do governo na Câmara. Aos poucos, o diálogo descambou para trocas de indiretas e até diretas.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, também participou do bate-boca. Ele entrou na discussão e acabou revelando plano do pai para influenciar na disputa pela presidência da Câmara. Depois da longa troca de acusações entre Joice e Olímpio, Eduardo disse aos integrantes do grupo que havia recebido ordens do pai para conduzir articulações na Câmara apenas nos bastidores, de modo a não irritar o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

A deputada ficou contrariada quando Eduardo escreveu que a colega de partido chegaria “com fama ainda maior de louca no Congresso”, depois do bate-boca no aplicativo.“Minhas discussões aqui são políticas e não pessoais. Se formos discutir a questão ‘fama’ a coisa vai longe”, rebateu Joice , acusando o filho “agir como um bebê no jardim de infância”.

As rusgas foram resolvidas com a foto de Joice e Eduardo juntos, fazendo um coração com as mãos, na tentativa de acenar à bancada pedindo por união em torno das pautas do governo durante a nova legislatura, que só se iniciaria em dois meses.

O ministro e as laranjas

Ministro do Turismo de Bolsonaro, Marcelo Álvaro Antonio é investigado por supostamente ter empregado dinheiro do fundo eleitoral em candidaturas falsas

Ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio Foto: Jorge William / Agência O Globo

Ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio Foto: Jorge William / Agência O Globo

Em 10 de fevereiro, uma reportagem do jornal “Folha de São Paulo” levantou a suspeita de que  uma gráfica ligada a um dirigente do PSL no interior de Pernambuco recebeu, do partido, R$ 1,2 milhão durante a campanha eleitoral  para prestar serviço a sete candidatos a deputado. O maior gasto foi feito por Luciano Bivar (ele declarou ter pago R$ 848 mil para a impressão de mais de 5 milhões de santinhos e adesivos). Os repasses, também foram colocados em xeque em relação a candidatos de Minas Gerais, feitos sob a gestão de Bebianno na legenda (em esfera nacional) e do ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio (em escala estadual). Votada por apenas 274 pessoas, uma candidata de Pernambuco chegou a receber R$ 400 mil do fundo partidário — a discrepância entre o valor e a pouca expressividade da campanha acendeu o alerta de que a candidatura fosse “laranja”, ou seja, criada apenas para cumprir dispositivo legal.

Bebianno acabou demitido (veja abaixo) e Marcelo Álvaro Antônio será mantido até que a Polícia Federal termine de investigar os fatos, conforme prometeu reiteradas vezes o próprio Bolsonaro. No último domingo, o responsável pela pasta do Turismo foi acusado pela deputada federal Alê Silva, do PSL em Minas, de ter feito ameaças de morte após ela colaborar com o Ministério Público na investigação sobre o falseamento de candidaturas. O ministro nega.

Filho do presidente desmentiu ministro

Bebianno foi desmentido após ter garantido que havia conversado com o presidente em meio a uma crise nos bastidores do governo

Carlos Bolsonaro desmentiu o então ministro Gustavo Bebianno Foto: Agência O Globo

Carlos Bolsonaro desmentiu o então ministro Gustavo Bebianno Foto: Agência O Globo

Em meio à repercussão sobre os repasses suspeitos, Bebianno tentou afastar os rumores de que a notícia havia causado uma crise no governo durante os últimos dias de internação de Bolsonaro em São Paulo (o presidente ficou no Hospital Albert Einstein durante 17 dias enquanto se recuperava de uma cirurgia para a reversão da colostomia). Para tentar mostrar tranquilidade diante das denúncias da imprensa, Bebianno afirmou que  havia conversado três vezes com Bolsonaro pelo telefone . O suposto contato frequente era, para ele, evidência de que “não existe crise nenhuma”.

Um dia depois, o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, desmentiu o secretário-geral em público. Nas redes sociais,  esclareceu que Bebianno e o pai não se falaram durante o período indicado pelo ministro e divulgou um áudio  em que Bolsonaro explicava a Bebianno que não conversaria com ninguém “a não ser estritamente o essencial”.

“Ontem estive 24 horas do dia ao lado do meu pai e afirmo: É uma mentira absoluta de Gustavo Bebbiano (sic) que ontem teria falado 3 vezes com Jair Bolsonaro para tratar do assunto citado pelo Globo e retransmitido pelo Antagonista”, disse o vereador no Twtitter.

As publicações de Carlos  foram retuitadas e endossadas pelo pai , que havia tido alta do hospital naquele dia.

Primeira baixa

Bebianno, que comandou o PSL desde a chegada de Bolsonaro, foi demitido do governo pelo presidente

O ex-ministro Gustavo Bebianno Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo

O ex-ministro Gustavo Bebianno Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo

Horas após a declaração do filho, o presidente Jair Bolsonaro concedeu uma entrevista à TV Record em que afirmou que se Gustavo Bebianno estivesse envolvido no uso de candidatos do PSL como laranjas na campanha eleitoral de 2018,  ele deveria sair do governo e “voltar às origens” .

Na mesma ocasião, Bolsonaro reafirmou que Bebianno mentiu sobre a existência de um diálogo entre os dois e destacou que o ministro da Justiça, Sergio Moro, fora instruído a solicitar que a Polícia Federal investigasse os repasses do PSL aos supostos laranjas.

Em meio ao fogo cruzado, Bebianno divulgou uma nota em que negou ser responsável pelo repasse de recursos a candidatas do PSL.  Ele disse que o dinheiro chegou às candidatas “por conta e ordem” do diretório local  — no caso de Minas, a gerência era responsabilidade do ministro do Turismo.

Após a entrevista do presidente, Bebianno esquentou o tom das próprias declarações sobre a crise, mas isentou o presidente de qualquer relação com os repasses do PSL. Em entrevista à revista Crusoé, ele disse que estaria “sendo jogado aos leões de maneira injusta”, mas que continuava exercendo o seu papel de “proteger o presidente da República, de seguir a liturgia”.  Ele também defendeu que não é “moleque para ficar batendo boca em rede social” .

Àquela altura, o Palácio do Planalto já vivia um clima de expectativa da possível saída do ministro da Secretaria-Geral. A aliados,  Bebianno não demostrava a intenção de deixar o cargo voluntariamente e esperava uma decisão do presidente .

Tentando apaziguar os ânimos, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, reuniu-se com Bebianno e  afirmou que ele se manteria no cargo  com suas atribuições integrais. O chefe da Casa Civil classificou a crise como “um acidente do percurso”.

A permanência de Bebianno no governo foi costurada por Lorenzoni, mas Bolsonaro não ficou satisfeito. Para rebaixar o auxiliar de posto  ofereceu uma diretoria em Itaipu, o que não foi aceito por Bebianno . O ministro teria dito que a oferta era uma demonstração de “ingratidão”. A exoneração de Bebianno passou a ser dada como certa por interlocutores. A  divulgação pela imprensa da intenção  de Bolsonaro de exonerá-lo teria acelerado o processo, que chegou ao fim em 18 de fevereiro, com a publicação da demissão.

Em um trâmite acelerado, o texto da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) foi aprovado em duas votações no plenário da Câmara na noite de terça-feira, com apoio até do partido do presidente Jair Bolsonaro, o PSL. Na primeira votação, foram 448 votos a favor e três contra. Na segunda, 453 deputados votaram a favor; seis, contra; e houve uma abstenção.

Menos poder sobre o Orçamento

Votação na Câmara que contou com o apoio da bancada do PSL tornou o Orçamento mais impositivo, na contramão do que desejava o ministro da Economia

Votação na Câmara dos Deputados Foto: Luis Macedo / Câmara dos Deputados

Votação na Câmara dos Deputados Foto: Luis Macedo / Câmara dos Deputados

No fim de março, o Congresso desengavetou uma proposta de 2015 – uma emenda constitucional – para tornar o Orçamento ainda mais impositivo (mais rígido), o que vai contra uma das principais bandeiras do ministro da Economia Paulo Guedes, que é desvincular e desindexar todas as despesas. Em um trâmite acelerado, o texto da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) foi aprovado em duas votações no plenário da Câmara no fim de março, com apoio até do partido do presidente . Na primeira votação, foram 448 votos a favor e três contra. Na segunda, 453 deputados votaram a favor; seis, contra; e houve uma abstenção.

Para além de evitar o isolamento diante dos outros partidos e da aprovação significativa da proposta, também pode ter pesado o fato de que, ainda que hoje isso seja uma contradição à intenção do ministro da Economia, o próprio presidente era a favor do orçamento impositivo quando estava na Casa — fato que foi destacado por Eduardo Bolsonaro no plenário.

Previdência sem convicção

PSL anunciou apoio à Reforma com presença de pouco mais da metade dos deputados

O plenário da Câmara dos Deputados Foto: Jorge William / Agência O Globo

O plenário da Câmara dos Deputados Foto: Jorge William / Agência O Globo

O líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir (GO), afirmou no fim de março que nem mesmo o PSL estaria “convencido” da reforma da Previdência e que após o envio do projeto dos militares, que embute uma reestruturação de carreira para as Forças Armadas, o Planalto não teria como contar nem com os 55 votos da legenda. Ele reclamou que o governo não queria assumir a “paternidade” da reforma, criticou novamente a articulação política do governo e defendeu que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), reassumisse as negociações. Maia e Bolsonaro trocaram farpas publicamente e o líder da Casa chegou a anunciar que deixaria a articulação apenas a cargo do governo.

Após uma reunião com pouco mais da metade da bancada do PSL, o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo, anunciou o apoio do partido à reforma, ainda no fim de março. Delegado Waldir não estava presente na ocasião, assim como a líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann, e o presidente da sigla, Luciano Bivar. Vitor Hugo fez o anúncio destacando que a maioria da bancada estava presente (eram 30 de 55 deputados).

Olavistas ‘fora do barco’

Delegado Waldir, líder do PSL na Câmara, fez balanço crítico dos primeiros 100 dias de governo e alfinetou seguidores do ideólogo Olavo de Carvalho

O líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir, durante entrevista Foto: Câmara dos Deputados

O líder do PSL na Câmara, Delegado Waldir, durante entrevista Foto: Câmara dos Deputados

Ao fazer um balanço dos primeiros 100 dias de governo, Delegado Waldir disse que o lugar de alunos, ex-alunos e admiradores do escritor Olavo de Carvalho — guru do Bolsonarismo — é fora do governo. O parlamentar afirmou que há muitos acertos, mas apontou falhas na articulação política e na disputa interna entre “tribos” na Esplanada dos Ministérios .

Ao abordar a situação do Ministério da Educação e a demissão de Ricardo Vélez do comando da pasta, Waldir disse que seria preciso separar as correntes que compõem o governo.

“Enquanto nós tivermos várias tribos num determinado ministério, você não tem o comando. Se perde o comando, são várias tribos se atritando. Acho que tem que ter um comando único. Separar militares, técnicos, olavistas e políticos. Separar e colocar cada um no seu quadrado”, avaliou Waldir.

Quando perguntado qual seria o “quadrado” de olavistas, o líder do PSL respondeu que seria “pular fora do barco para que o presidente possa governar com tranquilidade”.

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Reinhard Allan Santos