8 abr 2019

ANÁLISE: FANTASMAS SOLTOS FESTEJAM UM ANO DE LULA PRESO.

Há mais paixão do que razão nos que querem vê-lo mofar na carceragem e nos que gritam “Lula livre!”

Luiz Fernando Vianna

O ex-presidente Lula acena para apoiadores após comparecer ao velório de seu neto em São Bernardodo Campo, em 2 de março. Foto: Ricardo Stuckert Filho / Reuters

O ex-presidente Lula acena para apoiadores após comparecer ao velório de seu neto em São Bernardodo Campo, em 2 de março. Foto: Ricardo Stuckert Filho / Reuters

Luiz Inácio Lula da Silva completa neste domingo 7 um ano preso na sede da Polícia Federal em Curitiba. Cumpre sentença pelo caso do tríplex do Guarujá. Para aqueles que o odeiam ou o amam, não faria diferença se fosse pelo sítio de Atibaia ou por ter, sabe-se lá quando, fumado charuto em local proibido. Há mais paixão do que razão nos que querem vê-lo mofar na carceragem e nos que gritam “Lula livre!”.

Embora pesem sobre ele acusações de corrupção, Lula corre forte risco de sair da cadeia (vivo ou morto) maior do que entrou. É como um móvel que foi tirado da sala, mas que não abandonou as conversas e os pensamentos das pessoas. Interessa a muitas delas um Lula vivo (não um mártir completo, portanto), preso (fisicamente subjugado) e sem poder ser observado ou ouvido – logo, sem utilizar o que tem de mais forte, o carisma. A outras interessa o líder de volta à cena, sobretudo num tempo tão desprovido de líderes.

A conjuntura não ajuda. A campanha que elegeu Jair Bolsonaro presidente e os primeiros cem dias de seu governo libertaram ignorâncias (nazismo de esquerda, negação de ditadura) e fantasmas (comunistas doutrinando estudantes nas escolas e nas universidades). Não é tempo de serenidade e reflexão. Apesar dos 73 anos, de ter passado por um câncer e de ter acabado de perder um neto, Lula precisa ser mantido na conta de alguém extremamente perigoso. Tem lugar de destaque no trem fantasma que ronda o Brasil de hoje.

Mesmo o Supremo Tribunal Federal está assustado. Mais uma vez foi adiado o julgamento sobre a constitucionalidade das prisões para condenados em segunda instância – caso do ex-presidente. Ministros temem tomar uma decisão que resulte na libertação de Lula, e que isso provoque revolta contra a corte.

Preso a seis meses das eleições, Lula não conseguiu ser candidato a presidente em 2018. Era o líder nas pesquisas. A força da sua popularidade não foi medida: ele seria capaz de derrotar Bolsonaro?

Em comum, os dois têm a origem popular, modos de agir e falar que não agradam as chamadas elites. E ambos se dizem adversários delas. Lula as satisfez num governo em que quase todos os setores ganharam. Empresários e trabalhadores não precisaram fustigar muito a luta de classes. Eleito em outro momento econômico, Bolsonaro foi adotado pelas mesmas elites para concluir o serviço que Michel Temer apenas começou: tocar reformas impopulares. O papel de capitão-do-mato lhe parece incômodo, mas é o que a casa-grande tem para oferecer em troca de apoio.

O Brasil conta, no momento, com um governo titubeante e uma oposição, idem. O PSL de Bolsonaro e o PT de Lula possuem as maiores bancadas de deputados federais, mas é difícil saber o que elas pensam. Os bolsonaristas agem como delegados de costumes e juram que não querem cargos para apadrinhados; os lulistas têm vergonha de assumir posturas independentes e, assim, insinuar que se esqueceram do chefe, cuja libertação devem priorizar.

É um cenário miserável. Aproveitando o vazio, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM), imagina-se um novo Ulysses Guimarães – e mira-se um futuro Tancredo Neves, com saúde mais bem cuidada. Tucanos como José Serra se sentem obrigados, por circunstâncias políticas e judiciais, a esconder a plumagem, deixando o PSDB acéfalo – ou com João Dória. Sobram vozes pingadas, como a de Ciro Gomes e seus polissílabos agressivos.

Desde 1989, ano em que quase derrotou Fernando Collor, Lula tem sido a baliza mais visível da política nacional. Quem esteve por perto já ganhou abraços de afogado – como quando ele comprou briga com o Plano Real, entre 1994 e 1998 – ou ingressos para o Palácio do Planalto, conquistado em 2002 graças ao perfil paz-e-amor.

Personalista, cioso de sua biografia incomum, Lula não quis formar sucessores, apenas “postes”. Cortou pedaços das asas do PT, assemelhando correligionários a súditos. Em sua defesa, pode afirmar que tem uma história fascinante para ostentar e que coroou um governo de oito anos fazendo presidente a pouco conhecida Dilma Rousseff.

Fernando Henrique também tem história e, à sua maneira escorregadia, vem sinalizando resistência a Bolsonaro. No segundo turno de 2018, porém, preferiu não apoiar Fernando Haddad. Evitou, assim, virar satélite de Lula. Este era e ainda é a medida principal das coisas. Agora está preso, e o país está sob um governo desmedido, que não tem oposição para valer, a não ser a que faz contra si próprio.

Pode-se tentar argumentar que a prisão de Lula é um assunto técnico: ele teria cometido erros previstos no Código Penal e precisa pagar por isso. Mas nem seus algozes disfarçam bem o caráter político dos processos judiciais. Em 2016, Sergio Moro divulgou conversa de Lula com Dilma obtida quando a autorização para o grampo tinha caducado. Em 2018, na semana da votação do primeiro turno, o mesmo Moro liberou delação do ex-ministro Antonio Palocci que não tinha valor jurídico, mas podia ter peso eleitoral. Hoje, Moro é o ministro da Justiça do governo Bolsonaro.

Como escreveu Elio Gaspari em artigo publicado na quarta 3, no Globo e na Folha de S. Paulo, “a decisão dos magistrados um dia será uma nota de pé de página na narrativa de um fato maior”.

Há muitos fantasmas livres no país em que Lula está preso. Não parece uma coincidência.

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Reinhard Allan Santos