28 fev 2019

Edifício Holiday na iminência de um desastre.

Prédio situado em Boa Viagem tem graves riscos à vida de seus três mil moradores

Por: Rosália Vasconcelos

Edificação com 3 mil moradores pode ser interditada a qualquer momento. Foto: Mandy Oliver/Esp.DP.

Edificação com 3 mil moradores pode ser interditada a qualquer momento. Foto: Mandy Oliver/Esp.DP.

A gravidade dos riscos que envolvem o Edifício Holiday, um dos prédios mais emblemáticos do bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, será discutida por diversos órgãos públicos e a concessionária Companhia Energética de Pernambuco (Celpe) às 15h de amanhã, na 7ª Vara da Fazenda Pública do Fórum Rodolfo Aureliano, na Ilha da Joana Bezerra.

A Justiça estadual, gestores públicos e moradores devem decidir se haverá interdição do edifício que, segundo laudos recentes, está na iminência de uma tragédia. Entre os problemas apontados, está a precária estrutura elétrica do imóvel com muitas gambiarras, excesso de lixo e de botijão de gás, grades inapropriadas que impedem o f luxo de pessoas numa situação de evacuação e problemas estruturais.

“A situação no Holiday, em termos de risco, chegou ao limite e é muito grave. Não adianta pormenorizar a situação. É um edificação patológica e não podemos deixar que o Holiday seja mais uma tragédia brasileira pela falta de precaução. Se for preciso retirar os moradores, nós faremos porque nosso objetivo maior é tomar decisões que preservem vidas. E, para isso, estamos coordenando ações com diversas equipes que estão fazendo avaliações. O laudo da Defesa Civil foi concluído, também pedimos um trabalho da vigilância sanitária. Tudo está sendo entregue ao Ministério Público de Pernambuco, que abriu um inquérito civil na semana passada e estamos judicializando todo o processo. Falta solicitar oficialmente o laudo do CREA/ PE”, explanou o tenente-coronel de Planejamento Operacional do Corpo de Bombeiros, Erick Aprígio.

Cerca de 30% dos imóveis do Holiday são locados e 70% dos residentes são proprietários. Foto: Mandy Oliver/Esp.DP.

Cerca de 30% dos imóveis do Holiday são locados e 70% dos residentes são proprietários. Foto: Mandy Oliver/Esp.DP.

Segundo ele, o risco de incêndio é muito alto e o nível de degradação estrutural dos 17 andares do imóvel aumenta ainda mais a propagação de fogo e um risco de desabamento no caso de um incêndio. “Temos um plano de atendimento e evacuação do prédio, em caso de desastre, mas aqui estamos falando em prevenção”, colocou Aprígio. Muitas unidades do Edifício Holiday são utilizadas para produção de manejo de alimentos vendidos na praia de Boa Viagem, o que explica a grande concentração de botijões de gás. Cerca de três mil pessoas residem no Holiday atualmente.

Um cadastro socioeconômico está sendo realizado pela Defesa Civil do Recife e, uma estimativa prévia, segundo o coronel do Corpo de Bombeiros, 80% dos 476 apartamentos são alugados ou servem de comércio. No entanto, de acordo o administrador do condomínio e morador do Holiday, Carlos Barbosa, 52 anos, apenas 30% dos imóveis são locados e 70% dos residentes são proprietários de seus apartamentos.

Em nota, a Secretaria Executiva de Defesa Civil do Recife informou que realiza constantes vistorias no Edifício Holiday. Recentemente, realizou mais uma, em conjunto com outros órgãos, e que não foi constatado um risco alto de desabamento do prédio, embora em caso de incêndio essa possibilidade fosse iminente. “Um laudo sobre esta situação já foi elaborado e encaminhado aos órgãos e aos responsáveis pelo imóvel”, disse a nota. Já o MPPE informou que a Promotoria de Habitação e Urbanismo, através do inquérito civil, está investigando se o condomínio tem condições adequadas de habitabilidade e caso esteja em situação de risco, o Corpo de Bombeiros é quem executa a interdição.

Celpe pretende suspender energia elétrica por segurança

Perigo: quadros de energia ficam no porão. Foto: Mandy Oliver/Esp.DP.

Perigo: quadros de energia ficam no porão. Foto: Mandy Oliver/Esp.DP.

Moradores do Holiday, que foi construído em 1957, estão desesperados com a possibilidade de interdição. Na semana passada, a Celpe esteve no imóvel para suspender o fornecimento de energia por segurança, respaldada pelo artigo 170 da Resolução 414 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que determina o corte imediato em caso de risco de acidente. A suspensão, contudo, implicaria numa interdição forçada, já que inviabilizaria as condições de habitabilidade de um prédio de 17 andares.

“Temos 200 idosos morando aqui. Temos pessoas obesas, deficientes, diabéticas. Todo mundo precisa do elevador. A maioria dos idosos, por exemplo, mora nos últimos andares. Além disso, utilizamos água de poço, que precisa de energia elétrica para puxar e chegar até os apartamentos. Sem luz, ficaremos sem água também e seremos obrigados a sair”, lamentou Carlos Barbosa.

Para a dona de casa Valdete Moraes, 58, residente e proprietária de sua unidade, será difícil sobreviver fora do condomínio. “Os moradores mais antigos estão aqui desde que o edifício foi construído, fincaram suas raízes aqui. Como vamos dizer para eles que vão sair? E para onde vão? Acho que para muitas pessoas, será o mesmo que matar.”

De acordo com a Celpe, a suspensão da energia tem como finalidade resguardar a integridade física dos moradores e a concessionária, como foi impedida de fazer o corte na semana passada, está buscando medidas judiciais cabíveis. “A empresa constatou que as instalações elétricas do prédio estão em condições precárias e apresentam risco iminente de incêndio e acidentes com energia elétrica”, disse a Celpe em nota.

Para o secretário de Mobilidade e Controle Urbano do Recife, João Braga, a interdição deve ser a última alternativa. “Há possibilidade concreta de uma tragédia por conta das condições elétricas. Existe outros problemas vinculados, como a conservação do prédio e o lixo. E, em caso de incêndio, pode haver sim um desmoronamento. Mas acredito que se houver uma divisão de responsabilidades para resolver os problemas mais críticos sem retirar as pessoas, será a melhor opção. E quando falo em urgente não é daqui a 15 dias. É ainda esta semana, porque o risco é iminente”, disse Braga.

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Reinhard Allan Santos