11 fev 2019

REDES DE NOTÍCIAS FALSAS MUDAM DE PERFIL E AGORA APOSTAM NA DEFESA E PROMOÇÃO DO GOVERNO BOLSONARO.

GUILHERME AMADO

Da mesma maneira que os governos Lula e Dilma tinham seus próprios porta-vozes na blogosfera e davam a eles tratamento especial, com verbas e informações privilegiadas do governo, Bolsonaro ensaia fazer o mesmo, ainda que, por enquanto, sem o uso de verba publicitária.

Fake News Foto: Época

Fake News Foto: Época

Uma foto de promotores do Ministério Público do Rio de Janeiro, com camisas “Sou do MP e contra o golpe”, explicaria o “ódio contra Flávio Bolsonaro”. Teori Zavascki teria chamado as práticas de Sergio Moro de “medievais”. Passados três meses do fim das eleições, as notícias falsas estão a pleno vapor, à direita, à esquerda, ao gosto do freguês. Nos grupos pró-Bolsonaro, o objetivo é alardear falsos feitos do governo, manter vivo o sentimento contrário à esquerda e dobrar a aposta no clima de divisão que levou Jair ao Planalto. Do outro lado do balcão, os grupos petistas procuram atacar os principais integrantes do governo, notadamente o próprio Bolsonaro e Sergio Moro. E, nos dois lados da moeda, tal qual fizeram na eleição, os políticos fingem que não é com eles.

No Facebook, um dos grupos mais atuantes na disseminação de informações falsas a favor do governo é o Apoiadores do Presidente Bolsonaro, com 320 mil pessoas. Uma das administradoras é Aline Lopes, do PSL do Rio de Janeiro, que tentou se eleger deputada federal com o codinome Dama de Ferro e uma foto com Jair e Flávio Bolsonaro. O juiz federal Eduardo Cubas, afastado em outubro pelo Conselho Nacional de Justiça após tentar recolher urnas eletrônicas por suspeita de fraude, também figurava entre os moderadores. Deixou a página na terça-feira, ao ser questionado sobre o porquê de estar num grupo que propaga notícias falsas.

Em 10 de janeiro, Lopes fixou como postagem principal da página uma série de falsas realizações da gestão bolsonarista nos dez primeiros dias. A lista não tem conexão com a realidade: fim da vistoria veicular, fim da “Bolsa Bandido”, redução do preço da gasolina, entrada em vigor da “lei do abate contra marginais de fuzil”, fim de sete impostos, Bolsa Família batendo recorde de desistências após anúncio de auditorias. E por aí vai.

Os grupos de notícias falsas da esquerda estão bem menos aquecidos do que na eleição, mas ainda existem. Em 2 de janeiro, a página de Facebook Dilma Rousseff, a Legítima Presidenta do Brasil deixou de lado a referência ao impeachment e passou a se chamar Resistência com Dilma Rousseff. Não deixou para trás a mentira. Suas publicações afirmam que Teori Zavascki teria dito a frase “Método do juiz Moro é medieval e envergonha sociedade civilizada” e que Bolsonaro teria acabado com a aposentadoria especial de professores. Nem Zavascki usou esse tom com Moro, nem Bolsonaro aprovou (ainda) algo que afete os interesses dos professores.

Grande parte das redes sociais da direita e da esquerda reproduz o conteúdo feito por sites especializados em notícias falsas ou feito por militantes que se dizem jornalistas. Da mesma maneira que os governos Lula e Dilma tinham seus próprios porta-vozes na blogosfera e davam a eles tratamento especial, com verbas e informações privilegiadas do governo, Bolsonaro ensaia fazer o mesmo, ainda que, por enquanto, sem o uso de verba publicitária.

Na posse presidencial, por exemplo, o Palácio do Planalto credenciou como jornalista o blogueiro Flavio Azambuja Martins, que assina na internet com o pseudônimo Flavio Morgenstern. Martins foi condenado em novembro pela 14ª Vara Cível da Justiça do Rio de Janeiro a pagar R$ 120 mil por ter criado e incitado a divulgação da hashtag #CaetanoPedofilo, aludindo à informação falsa de que a produtora Paula Lavigne teria sido vítima de um suposto ato de pedofilia de Caetano Veloso.

Esse conteúdo também é desaguado nos aplicativos de troca de mensagens, como WhatsApp e Telegram, onde as notícias falsas continuam à toda, seja para defender o governo, o legado de Lula ou só manter o binarismo.

À esquerda, o grupo de WhatsApp “Lula presidente” tem espalhado uma falsa comparação entre os patrimônios de Lula e de Bolsonaro. Bolsonaro aparece tendo R$ 15 milhões, o que é falso. Segundo sua declaração patrimonial ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no ano passado, ele tem R$ 2,28 milhões. E Lula teria, segundo a imagem espalhada no grupo, R$ 11 milhões. Outra mentira: o ex-presidente declarou ao TSE no ano passado ter patrimônio de R$ 7,98 milhões.

Mas nenhuma operação de propagação de informação falsa de que se tem notícia se compara com o empenho do consultor de informática Fernando José Amaral. Morador de Nova Friburgo, Rio de Janeiro, Amaral mudou o perfil de seus dois sites, Presidente Bolsonaro e Deus Acima de Todos, criados em 2017 para ser repositórios de notícias falsas a favor de Jair Bolsonaro. Antes e durante a campanha, os dois sites publicavam até 20 notícias falsas por dia em defesa de Bolsonaro e contra o PT, o PSOL ou temas combatidos pelo grupo do atual presidente, a exemplo do feminismo. A distribuição do material era feita em grupos de WhatsApp, nos quais o usuário podia entrar por meio da página na internet.

Agora, os sites de Amaral mantêm os torpedos contra a esquerda — na semana passada, publicou uma notícia de que Palocci delataria “tudo” sobre a morte de Marisa Letícia —, mas estão principalmente na trincheira da defesa do governo. Um texto de janeiro, por exemplo, elencava as falsas razões pelas quais o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) teria promovido uma atuação ilegal contra Flávio Bolsonaro e apresentava uma foto falsa de promotores do Ministério Público do Rio de Janeiro numa manifestação contra “o golpe”. O MP do Rio desmentiu que se tratava de promotores.

Links antigos também têm voltado à tona nos grupos de aplicativos, mas o WhatsApp, sabe-se lá por que, agora ficou para trás. No Telegram, Amaral reeditou nesta semana uma postagem antiga, de 2017, sobre uma “descoberta sem precedentes” de cientistas muçulmanos: as mulheres são mamíferas.

Fernando Amaral afirmou ter dificuldade para distinguir o que é falso do que é verdadeiro. Indagado sobre a confiabilidade da descoberta de que a mulher é um mamífero, por exemplo, respondeu “não saber se é falso”. Fora da internet, ele também não trafega com clareza entre o real e o virtual. Em 2017, registrou uma ocorrência numa delegacia de Nova Friburgo relatando ouvir passos em seu telhado e mostrando a gravação de vozes enquanto ele dormia. A polícia nunca encontrou nada.

(Atualização: O juiz Eduardo Cubas enviou mensagem à coluna em que afirma que seu nome foi acrescentado como moderador sem sua autorização, e portanto estava lá sem seu conhecimento.)

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Reinhard Allan Santos