8 nov 2018

O Mapa da Mina.

100 mil caixas cheias de pedras, coletadas a mais de 7 quilômetros de profundidade no Oceano Atlântico, guardam os segredos do pré-sal.

Bruno Rosa

Caixas com pedras do pré-sal: 95% delas estão guardadas em depósitos da Petrobras onde apenas funcionários autorizados podem entrar Foto: Banco de imagens Petrobras

Caixas com pedras do pré-sal: 95% delas estão guardadas em depósitos da Petrobras onde apenas funcionários autorizados podem entrar Foto: Banco de imagens Petrobras

Qual é o segredo do pré-sal? Empresas do mundo inteiro e centros de pesquisa estão atrás dessa resposta. Considerada uma das principais áreas produtoras de petróleo do mundo atualmente, companhias da Rússia, dos Estados Unidos e da Europa vêm pedindo autorização ao governo brasileiro para estudar as amostras das rochas encontradas a mais de 7 quilômetros de profundidade no meio do Oceano Atlântico. São essas informações contidas nas pedras soterradas há milhares de anos pela força da natureza que ajudam as petroleiras a entender o novo mapa da mina.

Por lei, a Petrobras e todas as petroleiras que operam e exploram campos de petróleo no Brasil são obrigadas a enviar amostras das rochas coletadas durante as perfurações para a Agência Nacional do Petróleo (ANP). O objetivo é criar um banco de dados e permitir o estudo das características dessas rochas encontradas no país. Embora tenha sido descoberto há apenas 12 anos, o pré-sal conta com cerca de 100 mil caixas com amostras de campos importantes na Bacia de Santos, como os de Lula, Sapinhoá e Libra.

Os pedaços do pré-sal já respondem por 20% do material colhido em toda a história do setor no país, que começou a produzir petróleo no fim dos anos 30 em uma área terrestre no interior da Bahia. Atualmente, de acordo com a ANP, há 500 mil caixas (de 1 metro de comprimento), que somam mais de 2 milhões de amostras e 100 mil lâminas petrográficas.

O dado ajuda a explicar o apetite global pelo pré-sal. Hoje, a área, localizada entre o litoral do Rio de Janeiro e o de São Paulo, responde por mais da metade da produção de petróleo no país, com 1,8 milhão de barris por dia. E mais: um poço no campo de Libra, que está em testes, é considerado um dos maiores produtores no mundo, com a extração de 38.800 barris de petróleo por dia. Levando-se em conta o gás natural que está sendo reinjetado no campo, o volume chega a 55 mil barris por dia.

É de olho nesses números que as companhias vêm investindo bilhões para arrematar blocos como os que foram leiloados ao longo do ano de 2018. Na quarta rodada de leilões, em junho, Shell, Chevron, BP, Equinor, Exxon e Petrogal levaram três áreas em consórcios com a Petrobras, gerando para o governo uma arrecadação de R$ 3,15 bilhões. Já a quinta rodada, em setembro, gerou R$ 6,8 bilhões aos cofres públicos, que foram pagos por Shell, Chevron, Exxon, QPI, BP, Ecopetrol e CNOOC. Desta vez, a estatal não se juntou às rivais nas aquisições para os campos na Bacia de Santos.

O lance feito no dia do leilão começa a ser definido bem antes. Segundo a ANP, a lista de interessados em descobrir as características das rochas mais disputadas do mundo só cresce desde 2016. Entre os “curiosos” estão pesos pesados do setor, como a russa Rosneft, as americanas Chevron e Exxon, além das europeias Equinor (Statoil), Total e Shell. Todas vêm se debruçando sobre essas rochas para estudar melhor suas características e, com isso, abocanhar ainda mais um pedaço dessa nova e lucrativa fronteira petrolífera.

“Em média, as empresas ficam de seis meses a um ano estudando as amostras. Os estudos e análises levam até dois anos. As amostras se tornam públicas após o período de sigilo, que, atualmente, é de dois anos. Durante esse período, a empresa petrolífera operadora do campo realiza as análises para desenvolvimento dos poços e campos, entregando todos os resultados à ANP. Todas as análises e os trabalhos realizados em amostras são encaminhados à agência para acesso público após esse período de sigilo”, explicou Claudio Jorge de Souza, superintendente de Dados Técnicos da ANP.

É por isso que essas rochas são guardadas como se fossem pedras preciosas. Hoje, 95% das caixas estão depositadas nas chamadas litotecas da Petrobras em cidades como Catu, na Bahia, Vitória, no Espírito Santo e Mossoró, no Rio Grande do Norte, além do Rio de Janeiro. Na capital fluminense, as amostras estão armazenadas no Centro de Pesquisa da estatal, o Cenpes, na Ilha do Governador. Lá, apenas funcionários autorizados podem entrar no galpão, que conta com sistema de segurança reforçado. É proibido o uso de máquinas fotográficas e celulares e a refrigeração é especial.

Entre as empresas autorizadas a analisar as pedras estão as americanas Chevron e Exxon, as europeias Equinor (Statoil), Total e Shell e a russa Rosneft Foto: Banco de imagens da Petrobras

Entre as empresas autorizadas a analisar as pedras estão as americanas Chevron e Exxon, as europeias Equinor (Statoil), Total e Shell e a russa Rosneft Foto: Banco de imagens da Petrobras

“Antes de as amostras serem armazenadas, são feitas fotos especiais que vão para uma biblioteca. A Petrobras armazena essas pedras, que são de propriedade da União. É curioso porque vem gente do mundo todo estudar o pré-sal e fica aqui por meses. As pedras revelam os segredos. Por isso, não se pode fazer fotos aqui sem autorização. Um especialista pode pegar muitos detalhes apenas com uma imagem”, disse a funcionária da estatal responsável pelo estudo. Sua identidade não pôde ser revelada por questão de segurança.

O executivo de uma empresa que pediu para estudar os dados das rochas lembra que a análise é demorada e pode envolver dezenas de funcionários. Contudo, destacou, essa pesquisa é essencial para dar mais confiança ao investimento.

“Quem vai investir bilhões de reais em uma área ainda pouco conhecida quer ter o máximo de certeza. Por isso, são feitas diversas análises. Houve casos em que ficamos analisando algumas amostras por um ano até termos certeza de que valia a pena fazer o lance em um leilão”, explicou o especialista, que pediu anonimato.

Além das operadoras, empresas de serviço nacionais como Geochemical, Corelab e Petrec também pediram para examinar as rochas. Entre as universidades estão a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), entre outras.

“Em geral, preferem analisar amostras de poços do pré-sal devido à necessidade de desenvolvimento de novos estudos e análises químicas e físicas, que ainda são carentes de ensaios laboratoriais. Outros estudos específicos de bioestratigrafia (para identificar a idade geológica por meio das espécies de fósseis encontradas) também são muito empregados para a ampliação do conhecimento geológico”, afirmou Souza, da ANP.

O geólogo Pedro Zalán, da consultoria ZAG, lembra que o estudo é importante para as companhias, pois somente com um grande pedaço da rocha em mãos é possível determinar com mais exatidão se o campo de petróleo tem potencial para ser um bom produtor ou não. Segundo ele, a primeira característica a ser analisada é o espaço dos poros na rocha, chamado de nível de porosidade.

“Quanto maior esse espaço, maior a chance de acumular petróleo. Depois, é analisado o espaço entre os poros, chamado de permeabilidade. Entender isso é essencial para saber se, na hora da produção, será necessário estimular a produção do poço com injeção de água ou gás. Se não houver comunicação entre esses poros, já se sabe que a produção é baixa. Dependendo ainda de como estão esses poros e de como eles se comunicam, a empresa consegue analisar se fará uma perfuração horizontal, vertical ou inclinada”, explicou Zalán.

O geólogo exemplificou ainda que as companhias costumam analisar a presença de minerais na rocha. “Dependendo da presença de determinados minerais na rocha, não se podem usar determinados produtos para estimular a produção. E é importante saber isso antes de comprar uma área, pois tudo ajuda na redução dos custos.”

O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), não falou ainda claramente se pretende ou não manter o atual calendário de leilões. Em entrevistas recentes, ele disse: “Não temos recursos para explorar o pré-sal”.

Rhass

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Henrique Barbosa