19 ago 2014

Marina atrai desencantados e ameaça Aécio.

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Se a eleição presidencial deste ano já se desenhava como das mais acirradas desde 1994, a entrada de Marina Silva (PSB) no páreo aumenta ainda mais a competitividade da disputa. Marina é uma ameaça real às duas forças que polarizam a corrida ao Planalto há 20 anos, de acordo com pesquisa Datafolha divulgada ontem, a primeira depois da morte de Eduardo Campos.

Marina aparece em segundo lugar, em empate técnico com o PSDB, do senador Aécio Neves (21% x 20%), e, agora, num mais que provável segundo turno, surge à frente do PT da presidente Dilma Rousseff (47% a 43%), também numa situação de empate, porém já quase fora da margem de erro, que é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Com Marina, a terceira via multiplicou suas preferências em cerca de 2,5 vezes – pois, nos últimos levantamentos, Eduardo Campos registrava 8%. O mais interessante é que Marina acrescenta esse caminhão de intenção de votos, 13 pontos percentuais – potencialmente cerca de 15 milhões de votos – sem tirar dos principais adversários. Dilma continua com 36% e Aécio com 20%. O que isso significa?

Em primeiro lugar, mostra que Marina Silva se encaixa como uma luva a um segmento do eleitorado que estava à espera de seu candidato. A demanda encontrou a oferta. A entrada da ex-senadora reduz em dez pontos percentuais o grupo dos indecisos e dos que diziam que votariam em branco ou nulo. A candidatura Marina atrai os jovens e flerta com os movimentos de rua de junho do ano passado, pelo discurso de uma “nova política” que esbarra na antipolítica.

Em segundo lugar, o resultado do Datafolha sugere uma resiliência de Dilma e Aécio, que não caíram. Marina “roubou” os demais três pontos percentuais de outros candidatos à Presidência, mas não do tucano ou da petista. Isso deve levar à inversão, agora, da pergunta que se fazia logo após a morte de Campos: se Marina tiraria mais votos de Dilma ou de Aécio.

É possível que os 21% da ex-senadora sejam um reflexo da superexposição dela e de Campos – e de uma forma bastante positiva, quase sacralizada – nos dias seguintes à tragédia. Nem todos sabiam que Marina apoiava Campos, mas a ampla cobertura das investigações do acidente aéreo e do funeral faz com que, agora, a ex-senadora seja majoritariamente reconhecida como a parceira de chapa de um político supostamente sem defeitos.

A morte fez a emoção invadir a política. E Marina pode surfar nessa onda, mas talvez não por muito tempo. Parte do eleitorado que ela amealha está entre os indecisos, mais suscetíveis a fatores de campanha, que, pelo jeito, terão importância fundamental neste ano.

Entre estes fatores, estão a estrutura partidária nos Estados – os chamados palanques regionais – e o horário eleitoral no rádio e TV, que começa hoje. Com muito mais poderio de campanha e tempo de propaganda que a coligação de Marina, as equipes de Dilma e Aécio tentarão desconstruir a imagem da ex-senadora. A petista apontará a adversária como um entrave ao desenvolvimento, em virtude de sua conhecida plataforma ambientalista. E o tucano destacará a falta de experiência de governo de Marina.

Como já comparou um experiente político, estrutura partidária é infantaria, o exército de cabos eleitorais que atuam por terra. Tempo de TV é artilharia aérea, com ampla margem de ação e ataque. Nas duas, Marina encontrará dificuldades, especialmente no momento em que Dilma melhora seus índices de avaliação de governo, também detectado pelo Datafolha. Será uma disputa entre a razão, a prestação de contas, pelo lado da primeira e segunda vias, e a emoção, as promessas e o sonho de outro.

Para Aécio, no entanto, a ameaça de Marina é mais imediata, pois a situação de empate, no primeiro turno, precisa ser superada rapidamente. E a dinâmica eleitoral levará ao acirramento da disputa pelo segundo lugar. Dilma ainda tem um pouco mais de tempo para trabalhar a estratégia de enfrentar o desconhecido que será para o PT não duelar com os tucanos no segundo turno.

Valor

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Henrique Barbosa